26/05/2015

Meritocracia e o caminho para a Felicidade




Meritocracia e o caminho para a Felicidade

Por

Sasha Lamounier


Com certeza você já ouviu falar em “meritocracia”. E com 99% de certeza, essa palavra influencia sua vida de algum modo, direta ou indiretamente. Seja através da escola, faculdade, trabalho, ideologia, família ou sociedade de forma geral, a menção de honra ao mérito lhe é conhecido. Mas, afinal, o que é meritocracia?

Do latim meritum, "mérito" e do sufixo grego antigo κρατία (-cracía), "poder”, meritocracia significa em sctricto sensu “poder do mérito”, ou, “mérito com poder”. O mérito é a aptidão dado a algum sujeito. É uma forma de adequação do ser a algum estado esperado, estado dito aqui no sentido de “condição”. Portanto, meritocracia pode ser compreendida como a condição de representar uma expectativa esperada por alguma entidade. Se você corresponde à expectativa, então você possui o mérito.

Mas que expectativa? Depende de que mérito estamos falando. Se você trabalha numa empresa e espera ser promovido, a expectativa é que você irá trabalhar corretamente para que esta promoção chegue algum dia. Por exemplo, você irá fazer o que é preciso para se destacar. E ao ser reconhecido por este esforço, você receberá a recompensa esperada. Logo, pode-se dizer que a empresa respeitou a meritocracia, pois reconheceu o seu mérito de buscar um determinado fim.

Posto isso, podemos definir a meritocracia como o sistema onde o agente (aquele que age) busca um determinado fim, com o objetivo de satisfazer alguma necessidade. Se sua busca for bem sucedida, pode-se afirmar que o agente teve seu “mérito” reconhecido.

Uma sociedade de meritocracia é, basicamente, uma sociedade de expectativa. Espera-se alguma coisa do agente sempre. A questão chave, contudo, é justamente a mais óbvia: quem é este que espera algo?

Pode ser uma empresa, pode ser sua família, pode ser seus amigos, pode ser sua escola, pode ser você mesmo! Mais importante do que entender a meritocracia, é compreender para quem existe o mérito. Este é o problema central do termo que se tornou, para o liberalismo, um verdadeiro engodo.

Defender a meritocracia é defender o sistema da expectativa. Contudo, quem controla a expectativa é quem tem o poder. Para o liberalismo, espera-se que todos sejam livres respeitando-se uns aos outros. Respeitando-se a dignidade humana. O mérito, para o liberal, significa apenas aquele que respeita os direitos individuais: vida, liberdade e propriedade. Uma pessoa, uma entidade que age desta maneira, possui para nós um mérito. O mérito para o liberalismo nunca foi “fazer de tudo pelo dinheiro”. Isso é invenção da esquerda.

Para o socialista, contudo, também existe mérito. E o seu mérito é outra coisa. Se um governo controla a intervém na economia, de forma a “socializar os meios de produção”, então este governo é um governo de mérito. Se as empresas ficam com menos lucro graças a uma lei, então esta lei tem um mérito, para o esquerdista.

Portanto, “meritocracia” não é um sistema liberal. Na verdade, meritocracia é um sistema humano, sem dono. Trata-se apenas do sistema das expectativas. Se cada indivíduo identificar quem é aquele que tem expectativa, ele será livre. Se você atende a uma expectativa que não é sua, de que forma você pode ser livre? Se o que a empresa espera de você não lhe faz feliz, para que continuar neste emprego? Se seus amigos não correspondem ao que você busca, para que manter estes amigos? O ser mais importante é você mesmo. Identifique quem é você.

Muitas vezes na vida nós repetimos as expectativas dos outros. Reproduzimos o que a empresa quer de nós. E quando nos tornamos incapazes de entregar o serviço esperado, a “meritocracia” entra em ação e nos deixa deprimidos, infelizes, como se fôssemos o ser mais irresponsável do mundo. Ignoramos que muitas vezes a expectativa nunca foi nossa! Nós a compramos por algum motivo.

Isso também pode ser observado nos relacionamentos. Se sua namorada ou namorado espera algo de você e você não entrega o que é esperado, ele ou ela começará a cobrar. E esta cobrança logo se tornará um problema, se tornará motivo de brigas sem sentido, até um dia o casal se separar.

Quem é aquele que espera? É a pergunta mais importante quando se fala de meritocracia. Para quem há o “mérito”? Durante toda a sua vida você comprou o que lhe venderam. Eu lhe pergunto: quando você se tornará autossuficiente? Quando você comprará as suas próprias expectativas e não a dos outros?

A meritocracia como todo sistema de poder, pode funcionar para beneficiar a humanidade como também para escraviza-la. O único meio de identificar a boa meritocracia, é identificando a origem da expectativa. Se você tem uma expectativa para consigo mesmo, analise isso. Observe, veja se é isso mesmo que você quer para sua existência. Então, a meritocracia será um sistema privado, individual, e não coletivo.

Se aquilo que você espera realmente for o que você espera, então continue neste caminho. É o único caminho da felicidade.

O que é o mérito para o pobre? E para o rico? A maior parte dos problemas da humanidade advém desta falsa expectativa que cada um cria para si mesmo. Aquele que não tem sente-se impelido em ter. Ou seja, para ele, o “mérito” é significar que ele é alguma coisa que espera ser. O rico pode ter todas as riquezas materiais do mundo, mas se ele não tem um amor verdadeiro, se ele não tem o carinho dos filhos, como ele pode ser feliz? Depende do que ele busca. Se um homem é rico, mas busca o amor dos filhos, e se ele não tem este amor, então ele é pobre. Assim como o pobre pode ter o amor da família, mas se ele quer dinheiro e não tem então este será o seu problema, a sua pobreza.

Sendo assim, para ser livre do “sistema das expectativas”, que é o verdadeiro nome da meritocracia, eu lhe convido a investigar quem é aquele que possui a expectativa. Mérito de quem? Para quem? Por que você busca o que busca? Quem é aquele que busca? Quando você encontrar isso, a própria palavra “meritocracia” se tornará apenas uma palavra sem sentido. Porque você será, finalmente, livre. 


Porto -  Portugal
26 de Maio de 2015





04/05/2015

Exodus - Além das Escrituras



- Exodus -
Além das Escrituras

Por

Sasha Lamounier


 
Sou daqueles que acredita que conhecer um problema é o primeiro passo para resolvê-lo. Se ninguém se predispõe a falar o que observa claramente, então alguma coisa está errada. Talvez muita gente queira que o problema aconteça. Como eu não quero que aconteça, creio que é minha obrigação moral expor o que está acontecendo. E mais, dizer o que penso que poderá acontecer caso tudo se concretize. Rogo, contudo, que o leitor apele para o bom senso e julgue os fatos de acordo com a mais honesta racionalidade.



Este texto é tão e unicamente uma leitura, uma interpretação pessoal dos eventos que tem ocorrido no Brasil. Em um jogo de pôquer, especialmente na versão Texas Holdem, os jogadores tem acesso a cinco cartas comunitárias na mesa e duas cartas privativas para cada um. Durante o jogo, cada jogador pensa em estratégias tendo por base suas cartas e as cartas da mesa, assim como, probabilidades de quais jogos seus adversários podem formar. É com estas estatísticas mentais que o jogador de pôquer irá medir suas chances de vencer ou não aquela determinada mão. Trazendo para a política este método de “jogo”, farei uma análise tendo como base aquilo que conheço das cartas políticas. Minha mão é o que está aqui neste texto.

Por isso mesmo, antes de você começar a leitura, faço dois singelos pedidos. Primeiro não acredite em nada do que digo. Sério mesmo. Não acredite. Se algo aqui lhe interessar, busque por si mesmo a comprovação do fato. Segundo, não duvide de nada do que digo. Por mais absurdo que pareça, por favor, investigue e pesquise para comprovar ou desmentir o que foi dito.

Feito os pedidos, lhe alerto por fim para a simplicidade deste texto. Sim, ele é bem simples. Não tem palavras rebuscadas, nem links ou livros. É apenas um texto pequeno. Apesar de parecer simples, contudo, há de se considerar que a simplicidade é complexa. Para chegar às conclusões lógicas, precisei de pelo menos dois anos de intensa investigação prática da política brasileira e das ideologias que a permeiam. Li muita coisa, muitos documentos e estudei de tudo. Portanto o que lhe parece simples é apenas fruto de uma extensa complexidade. Muita coisa vai parecer obviedade para você. Algumas coisas talvez não. De todo modo, para dizer obviedade às vezes é necessário um grande esforço. Negamos o que está na nossa frente! Por isso, este texto aqui é sim muito óbvio. Previsível. Só que é preciso alguma sanidade para enxergar o previsível.

O Brasil passa por uma situação política e econômica jamais antes vista. Não é novidade para ninguém. A situação, porém, não é conturbada como outras crises políticas que já passamos. Trata-se de uma crise de identidade. Crise esta também perceptível em outras partes do mundo, mas que no Brasil apresenta-se com inigualável clareza. Esse problema, esse sentimento negativo de que tudo está errado e irá dar errado, cria uma depressão coletiva. E esta depressão alimenta a própria crise.

Respeitando-se as diferenças ideológicas, podemos resumir a política brasileira atual em dois grandes blocos programáticos. Os pró-PT (esquerda de forma geral) e os anti-PT (direita de forma geral). O povo brasileiro apolítico, ou que não está integrada a alguma ideologia, fica no meio, às vezes pendendo para um lado e às vezes para outro, dependendo do humor. Mas a rigor, são estes dois grandes grupos programáticos que existem no Brasil moderno. E digo programáticos, porque ambos os grupos tem programas de Brasil e de futuro bastante distintos.

O PT todos (supostamente) conhecem. Existe há 35 anos, subiu ao poder com Lula em 2002, mantêm-se no poder desde então, protagonizou o Mensalão, trouxe a Copa das Confederações e do Mundo, se fundamenta numa política desenvolvimentista e assistencialista, busca integração com outras nações de esquerda da América Latina, tem no Lula seu maior aporte etc.

Os anti-PT são aqueles que condenam aquilo que o povo (supostamente) NÃO conhece do PT. Ou seja, o projeto bolivariano (Foro de São Paulo) que a maior parte da população brasileira ignora: a ideia de progressivamente transformar o país numa Cuba (gramscismo-comunismo), o processo de sucateamento e aparelhamento das instituições democráticas para tornar o PT um partido único e totalitário, fim das liberdades individuais, fim da propriedade privada dos meios de produção e assim por diante.

Não importa quando esta oposição ao PT surgiu efetivamente, mas garanto que ela sempre existiu, apesar de (na maior parte do tempo) quase nula. Ela ganhou força mais precisamente em 2013, com o descontentamento popular geral e desde então tem se organizado na tentativa de barrar o PT e o projeto do Foro de São Paulo.

Então, temos aqui dois grupos majoritários (apesar de bastante heterogêneos).

A questão é que o discurso está radicalizado. E a tendência é se radicalizar cada vez mais. Após décadas de desinformação, o brasileiro não sabe mais o que defender e não sabe o que cada grupo defende. Se você é novato na política e está lendo este texto, provavelmente pensará que se trata de um texto anti-PT ou pró-PT, a depender de sua tendência. Só que o texto é neutro! Se você não o julga neutro, isso já mostra como você está doutrinado (por qualquer lado que seja) e não sabia. 

Percebe? Não há meio termo. Um grupo quer que o PT fique no poder. O outro grupo quer a todo custo tirar o PT do poder. Não há aqui um “caminho do meio”. Desta perspectiva, não há qualquer possibilidade de diálogo ou reconciliação nacional. A eleição de Dilma Rousseff em 2014 foi à gota d’água para que o anti-petismo ganhasse estruturas mais radicais. Juntando a crise econômica, juntando o medo natural que a população brasileira tem da violência e também dos erros já tradicionais da sociedade brasileira, o que sobra é caos. Histeria coletiva. Bem ou mal embasada.

Neste ano de 2015, já tivemos duas manifestações grandes pedindo a saída de Dilma Rousseff do poder (15 de Março e 12 de Abril). Não entro aqui no mérito se é bom ou ruim. Mas isso, aliado a instabilidade política causada pela crise na Petrobrás e na operação Lava Jato, forja um cenário caótico. E caótico, pois além da crise política, há ainda uma crise econômica crescente desde 2013 e que agora começa a chegar a seu momento mais crítico. Todo país precisa de estabilidade política para driblar crises econômicas, afinal o Congresso precisa trabalhar junto do poder executivo para aprovar medidas tributárias, econômicas que irão ajudar a tirar o país de um estágio problemático. Contudo, esta parceria não existe no Brasil. E uma crise política junto de uma crise econômica significa um movimento cíclico: um alimenta o outro. Enquanto não houver estabilidade política, a economia não irá melhorar. E enquanto a economia não melhora, a insatisfação social aumentará. E isso intensificará a oposição anti-PT.

E como o PT não pretende perder o poder (já deu muitas provas disso), em resposta à intensificação da oposição eles também irão intensificar ações e discurso. Em primeiro lugar, há de considerar que o PT irá a todo custo manter Dilma na presidência e defender o mandato do partido, para em 2018 eleger um sucessor. Só que se a tensão social aumentar devido à instabilidade política e a crise econômica, muito provavelmente ainda durante o segundo mandato da Presidente Dilma o Brasil sofrerá diversas complicações que podem num determinado ponto máximo, chegar às vias de fato de uma guerra civil. Ou seja, o que é caótico pode tornar-se apocalíptico.  

Uma guerra não acontece por acaso. Primeiro, há uma tensão de discursos. O que cada lado quer. Política é o meio pelo qual se concilia os discursos. Sim, política é a arte da conciliação. Quando falta diálogo, sobra briga. É a coisa mais óbvia do planeta. Mas é exatamente isso que está acontecendo no Brasil. Se nenhum lado ceder (o que é praticamente impossível) haverá sangue.

Existe toda uma composição de forças ligadas ao PT e aos anti-PT. No centro desse embate, está as Forças Armadas, que ninguém sabe que postura teria numa eventual violência social. Mais ainda, uma crise como esta simplesmente levaria a falência à economia brasileira, pois investidores sairiam correndo do país para não perder dinheiro. Sem investimento, o Estado será obrigado a investir ele próprio. Só que isso não será possível, pois o país estará falido, o povo brasileiro estará cada vez com menos renda. Em resumo, a crise social seria de uma extensão jamais antes vista na história! Ou seja: desemprego, falta de produtos no mercado, forças antagônicas que brigam pelo poder, projetos internacionais que dependem deste poder e assim por diante.

Como evitar tudo isso? Não tenho ideia. Talvez este texto jogue um pouco de racionalidade em quem lê-lo. O que sei é que algum lado terá de ceder. E como não vejo muita chance disso acontecer, infelizmente ponho minhas fichas no pior. De todo modo, ainda mantenho esperança. Não sei o que irá acontecer no nosso país, mas tenho esperança.


Muita gente tentará (e irá) sair do país. Mas e quem ficar? Aqueles que ficarem e sobreviverem a tudo isso serão os construtores do novo Brasil. E não pense que será algum “herói” letrado que leu autores da esquerda ou da direita. Serão justamente os mais humildes, os que menos tem qualquer relação com toda a confusão, aqueles que não têm a mínima ideia do que está acontecendo. Também serão os que mais irão sofrer. Perderão qualquer segurança que minimamente tenham. Mas é isso que fará a diferença. Pois o pobre é mais forte do que o rico. E isso não é discurso político. Basta ver a realidade. O pobre consegue perder tudo e se reerguer. Já o rico, se ele perde toda a fortuna dele, as chances de um suicídio são maiores. O pobre aguenta. Sofre, mas aguenta. Por isso este texto aqui é apenas um alerta. O Brasil tem jeito, mas não será nada do que defendem. Pois tudo o que defendem está fadado ao fracasso colossal. A solução estará na humanidade daqueles que ousam viver em um país tão duro (e tão bonito) como o Brasil.

Eu sinceramente renuncio a ambos os lados. Não sou anti-PT e nem pró-PT. Sou a favor da vida. E você?

Obrigado pela leitura,

Sasha Lamounier
Um brasileiro





05 de Maio de 2015

28/04/2015

Entre Dogma e Realidade




Entre Dogma e Realidade

Por

Sasha Lamounier


Em seu livro “Fundamentos da Liberdade”, no Capítulo IV - Liberdade,  Razão e Tradição - página 55 (1 As duas tradições de liberdade) [1], Hayek afirma que há duas tradições iluministas. A inglesa (dita empirista) e a francesa (dita racionalista), da qual o libertarianismo teria origem. O liberalismo, segundo Hayek, seria totalmente fruto da tradição inglesa.

O equívoco dessa afirmação se mostra, em primeiro lugar, no fato de não existir clara divisão entre liberais franceses e ingleses. Se por tradição inglesa entendemos o empirismo e francesa o racionalismo, há de se notar que durante o período de desenvolvimento das teses liberais tanto pensadores ingleses quanto franceses, de ambas as tradições, se influenciavam mutuamente. John Locke influenciou Voltaire que influenciou Adam Smith que por sua vez influenciou Bastiat. Ou seja, o eixo aqui não é nacional e nem principiológico: todos os liberais citados tinham por base os mesmos princípios.

Hayek se lembra disso, mas aponta para a diferença metodológica. Locke (junto de Hume) é considerado o pai do empirismo, e por isso não poderia ter tido conclusões racionalistas. Contudo, isso não é completa verdade. O empirismo de Locke e Hume era também racionalista. Não havia divisão! Popper (Lógica do método científico) [2] notou isso (página 27, O Problema da Indução), demonstrando o erro da não falseabilidade dos experimentos dos clássicos empíricos. Uma amostra singular não pode representar uma verdade universal indutiva, visto que isso seria um salto lógico sem evidências, portanto, puramente racional.

Antes de Popper, inclusive, Kant já havia feito críticas tanto ao empirismo (Crítica da Razão Prática) quanto ao racionalismo (Crítica da Razão Pura).

Portanto, é simplesmente falso de que havia distinção entre racionalistas e empiristas. Os liberais clássicos eram, na verdade, ambos. O empirismo inglês fundado com Locke e Hume não era “100% empirista”. Do mesmo modo Descartes, o matemático francês, não era 100% racionalista. Em ambos os casos a prática, a evidência e a conclusão lógica se mostravam notavelmente. 

Um exemplo prático é diferença entre as teses do contrato social em Locke e em Rousseau. No inglês, trata-se de uma visão fundamentalmente empírica, porém, com conclusões racionalistas, visto que não era possível pela evidência, fazer uma conclusão da parte para o todo. Rousseau, por outro lado, tem uma visão fundamentalmente racionalista, porém que se baseia na realidade de sua sociedade (empirismo) para chegar as conclusões lógicas.

Liberalismo clássico é, portanto, uma escola que inclui iluministas da tradição francesa e inglesa. Contudo, não há “liberalismos” diferentes, mas apenas um: o clássico. Pode-se afirmar que houve Iluminismos diferentes. Mas não liberalismos.

Após os clássicos, surgem diversas outras teorias econômicas e políticas, originadas todas elas do filho primogênito do iluminismo: o liberalismo. E do liberalismo surgirá nacionalismo, socialismo, libertarianismo, marxismo, anarquismo e assim por diante.

Evidente que uma tradição racionalista foi surgindo na França oitocentista gradativamente. Também por isso pode-se afirmar que a França é o grande celeiro do socialismo e anarquismo. Mas no princípio, quando os iluministas trabalhavam ainda em seu primeiro filho (o liberalismo) não havia esta cisão intelectual clara. Empiristas e racionalistas se influenciavam mutuamente e somente com o tempo que cada tradição foi ganhando um escopo mais definido e rígido.

O “novo liberalismo” pode ser compreendido como a escola liberal surgida dos racionalistas puros. Estes, por sua vez, são aqueles fundamentados em teses apriorísticas, sem qualquer evidência na realidade. Com o marginalismo, surgem as doutrinas econômicas racionalistas. E através deste movimento, surgiria um liberalismo dogmático, mais tarde conhecido como libertarianismo. Aqui nasce o minarquista libertário, surge o anarco-capitalista e toda a interrupção do processo liberal.

Por parte da tradição empírica, sobrariam evidentemente os clássicos (empíricos e racionalistas), mas também os ordoliberais e neoliberais (Milton Friedman, Hayek).

Libertarinaismo (assim como o nacionalismo, anarquismo, socialismo etc) não usam do método científico, da empiria, para classificar suas teses políticas. E raramente usam para suas teses econômicas. Neste sentido surge uma cisão.

Hayek aponta para uma cisão anterior, ainda no período clássico. O que, como citado nos primeiros parágrafos deste artigo, não é verdade. A cisão ocorreria com o movimento marginalista e criaria de um lado liberais clássicos (empíricos e racionalistas) e de outro libertários (somente racionalistas).

Por isso os liberais clássicos são conhecidos como necessariamente pragmáticos, pois usa da evidência, da realidade para buscar sua meta de liberdade individual máxima, livre mercado e governo mínimo. Já os libertários são dogmáticos, pois acreditam numa ética racional superior e que deve ser buscada independente das práticas. Perto da esquerda (anarquistas e socialistas) estão, portanto, os libertários, que utilizam o mesmo método de raciocínio para chegar a suas conclusões de inverossimilhança.

Por Sasha Lamounier
Um Liberal Clássico


Porto – Portugal
29 de Abril de 2015


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[1] http://www.libertarianismo.org/livros/fahofdl.pdf

[2] https://ocondedemontecristo.files.wordpress.com/2011/05/popper-karl-a-logica-da-pesquisa-cientifica.pdf






26/04/2015

Liberalismo Clássico: uma vocação progressista



Liberalismo Clássico: uma vocação progressista

Por

Sasha Lamounier


Muitos confundem o liberalismo clássico com o conservadorismo. Tomados por uma interpretação superficial dos contextos históricos, diversos autores e pensadores tomam os liberais clássicos como conservadores moralistas cristãos, que se vistos hoje, estariam distantes do ideário liberal clássico e mais afeitos ao liberalismo conservador.

Contudo, há aqui uma grave desvirtuação de atenção. Vamos tomar como ponto de partida para esta análise, Max Weber. Em sociologia compreensiva, Weber defende que as sociedades devem ser analisadas e observadas do ponto de vista DELAS. Ou seja, o observador não deve interpretar uma sociedade do ponto de vista de sua sociedade, mas deve tentar compreender o contexto e a composição da sociedade analisada.

E tendo isso como parâmetro, vamos analisar os pensadores clássicos, como John Locke, Adam Smith, Voltaire e Benjamin Franklin, só para ficar em poucos. Em primeiro lugar, o que eles questionavam, de forma unânime? A tirania. Todos em suas diversas obras têm como ponto em comum a contrariedade ao tirano, ao Rei absoluto que desrespeita o indivíduo, o ser humano. Isso era ser conservador? Para entender, vamos pensar no que era liberdade ANTES destes caras?

Em sentido estrito, porém eficaz, liberdade antes do liberalismo era respeitar a ordem divina imposta pelo dogma. Deus no céu, o Papa na Terra e os Reis como representantes do poder divino. Esse foi o ápice do absolutismo, exatamente na mesma época em que o iluminismo crescia como movimento intelectual. O iluminismo foi, basicamente, a segunda fase do renascentismo, época onde o protestantismo nasceu. E se os iluministas vinham desta tradição da renascença, onde filosofias clássicas (grega) eram retomadas pela Europa católica, então não eram bem “conservadores”.

Defender que o indivíduo deve ser respeitado apenas por ser um indivíduo e que o poder do Rei NÃO deriva de uma vontade divina, mas de um acordo social, é PROGRESSISMO. Então cabe perguntar: os liberais clássicos eram conservadores ou progressistas?

Se eles não tinham a mínima pretensão de preservar, de conservar o poder divino dos Reis, então evidentemente eram progressistas! Jamais conservadores. Os primeiros liberais eram cristãos, com certeza. Até porque saíam de tradições originadas na reforma protestante. E a reforma protestante foi cristã. Contudo, isso não significa que eram conservadores de qualquer coisa. John Locke, por exemplo, além de protestante, era também opositor do Rei Carlos II, junto de seu mentor político, Anthony Ashley Cooper, 1º Earl de Shaftesbury. Portanto, não há qualquer possibilidade de colocar Locke no seio dos conservadores, pois se há uma coisa que ele NUNCA FOI é “conservador”. Locke foi um progressista protestante, defensor da tolerância religiosa e das liberdades individuais. Se ainda restam dúvidas, fato inegável é que o Primeiro Tratado de Locke é uma refutação de “Patriarca”, obra de Robert Filmer onde o mesmo defendia o direito divino dos Reis.

Esta mesma atitude progressista encontraremos no escocês Adam Smith, no francês Voltaire e no norte-americano Benjamin Franklin. O que deveria ser óbvio para qualquer estudioso do liberalismo, não o é. E este desentendimento ocorre por um fato curioso: a não compreensão dos contextos históricos.

Analisados do ponto de vista de um homem do século XXI, John Locke pareceria um conservador. Defensor de moralismos tradicionais. O problema é que a tradição que Locke defendia começou EM SUA ÉPOCA. Logo, ele não era “moralista conservador”. Ele era um “moralista progressista”, que jogado no teste do tempo, tornou-se conservador. Mas tornou-se, pois 200 anos depois de John Locke a sociedade mudou muito. Aqueles que defendem tradições surgidas há 200 anos, hoje, são conservadores destas tradições.

Stuart Mill, pensador liberal do século XIX, é tido como o criador de um “liberalismo progressista”. Ledo engano... Mill viveu numa época onde surgiam os primeiros críticos do modelo liberal da época de John Locke. Surgem os socialistas clássicos, como Owen, Fourier e Saint Simon. Mill foi contemporâneo destes intelectuais e chegou a dialogar muito com eles, tendo de lidar com os primeiros ferrenhos críticos do liberalismo. Coube a Mill modernizar o pensamento liberal para o CONTEXTO social do século XIX. Isso não é tornar o liberalismo um progressismo, é apenas revitalizar um pensamento progressista aos tempos modernos. Daí a explicação para muitas das ideias de Mill contrariarem liberais mais antigos do que ele. Stuart Mill revisitou o liberalismo defendendo-o das críticas socialistas clássicas

Compreendido que o liberalismo clássico sempre foi progressista, cabe uma reflexão. O que é o liberalismo do século XXI?

Muitos conservadores defendem que temas polêmicos, como aborto, casamento homoafetivo, direitos das mulheres entre outras coisas são temas “anti-liberais”, pois não condizem com o pensamento dos pensadores originários do liberalismo. John Locke, o protestante moralista, jamais seria a favor do casamento homoafetivo, por exemplo. Isso quer dizer que todo liberal do século XXI (200 anos após Locke) deve ser contra o casamento gay? Evidentemente que não!

Se os pensamentos ficassem presos em suas épocas, John Locke não teria existido! E é importante compreender isso. Locke foi fruto da rebeldia de seu tempo. Tudo o que ele defendia era anti-moralista em sua época. Ser contra o poder divino do Rei, ser contra a religião do Estado, ser contra os súditos abaixarem a cabeça para o monarca, ser contra a submissão social ao monarca, isso era motivo de prisão. Tanto é que Locke exilou-se na Holanda com seu mentor por um bom tempo.

O liberalismo do século XXI tem dois desafios globais: compreender o mundo globalizado e lidar com a falta de zelo pelas ideias liberais, rotuladas e roubadas por uma esquerda revolucionária e violenta originada no século XX.

Se quisermos manter o liberalismo clássico puro e moderno, precisamos respeitar o contexto histórico em que vivemos e a tradição na qual o liberalismo nasceu. Todo liberal surge de um princípio: a defesa da liberdade. E esta liberdade muda, se retraduz no andamento natural da sociedade. Por isso é tão importante um retorno aos clássicos, mas sem nos esquecer de onde viemos. Não somos ingleses do século XVII ou XVIII. Somos brasileiros, americanos, africanos, chineses e assim por diante oriundos do NOSSO TEMPO. E devemos compreender isso a luz dos princípios defendidos por todos os liberais em todas as épocas: liberdade, vida e propriedade. Princípios base que jamais mudaram, não importando a era onde o liberal tenha nascido. 


Porto, Portugal - 26 de Abril de 2015.

Grato pela leitura,

Sasha Lamounier
Um Liberal Clássico