19/04/2020

A GEOPOLÍTICA DA PANDEMIA


PARTE 1
Contextualização e Teoria


Introdução


Antes de enveredar pela análise dos efeitos geopolíticos da pandemia do COVID-19, precisamos esclarecer algumas questões para o leitor não acostumado com o jargão das relações internacionais. Como a intenção deste artigo é apresentar ao leitor mais leigo uma contextualização de tudo o que acontece no mundo contemporâneo, optei por uma linguagem mais simples, mais objetiva e mais didática para tornar claro as minhas pessoais interpretações que se apresentarão ao longo de todo o artigo.

Para dar início aos trabalhos, precisamos diferenciar dois conceitos: Estado e Nação[1].

A Nação é um grupo humano formado por uma mesma língua, cultura, crenças, cosmovisão de mundo e compartilhada experiência coletiva (consciência nacional). Trata-se da narrativa que um povo faz para si mesmo ao longo do tempo. Essa narrativa pode mudar de acordo com eventos-chave, mas em todo caso, ela sempre existe. Do mesmo modo que um indivíduo precisa narrar uma história sobre si mesmo para ter coerência em sua vida, os povos também precisam. De onde viemos, quem somos, o que nos representa e para onde vamos. Esse enquadramento da realidade coletiva é o que constitui o conceito nação.

Já Estado é o conjunto de instituições que administram uma nação. Pode ser de qualquer tipo, esfera, intensidade ou densidade. O importante aqui é que o Estado nada mais é do que uma forma da nação organizar sua vida política e social. A forma do Estado normalmente deriva da experiência coletiva (enquadramento) de um povo diante da realidade. Desde as reformas iluministas na Europa, onde o poder absoluto do Rei deixou de ser centralizador e passou a ser diversificado, temos a seguinte estrutura:



O conjunto povo-cultura-território constitui a nação. Mas esta nação é administrada por um conjunto de instituições. Estas instituições é o que chamamos de Estado. E este Estado precisa de uma agência administrativa que dirige os seus afazeres. Esta agência denominamos de governo. Daqui surge o conceito de Estado-Nação moderno.


Em resumo:


Nação

Indivíduos, grupos sociais, religiões, empresas privadas, sociedade civil etc.


Esfera cultural e abstrata, condizente com o passado, o presente e as perspectivas de futuro


Estado

Instituições públicas: Governo Federal, Estadual, Municipal, STF, Congresso Nacional, Presidência da República, MPF, Polícia Federal etc.



Esfera estável e permanente, que reproduz as aspirações da sociedade no tempo e no espaço


Governo

Agências de administração das instituições: Presidente da República, Governador de Estado, Prefeito de Cidade, Desembargador, Ministro do STF, Deputado, Senador etc.


Esfera mutável e impermanente, reproduz os anseios da sociedade no curto e médio prazos, administra questões urgentes e objetivas, pragmáticas

O que é geopolítica, portanto?[2]

Geopolítica, como o nome diz, é o jogo político entre os estados-nacionais do mundo inteiro. O Brasil é um espaço geográfico que possui uma Nação e um Estado que o administra. Este Estado é reconhecido como pessoa jurídica ao redor do mundo, o que nos permite reclamar o direito de estado soberano (independente) frente aos demais Estados. A política entre países perfaz a geopolítica. Como diz o velho ditado: geografia é destino. Ou seja, a geografia de um país, suas riquezas, seu povo, sua economia, suas potencialidades, tudo isso são recursos que participam das relações internacionais, direta ou indiretamente.


Minha Interpretação da Geopolítica


Como adepto do realismo clássico (Hans Morgenthau, 1954) na teoria das relações internacionais, eu tendo a encarar o jogo geopolítico do ponto de vista dos Estados-Nacionais. Ou seja, compreendo que os Estados agem por intermédio de seus interesses internos e externos, tal como os indivíduos. Dentro da teoria das relações internacionais, há ainda duas vertentes de interpretação no que tange ao grau de relacionamentos entre as nações. Temos a teoria da dependência (desenvolvida por autores como Immanuel Wallerstein e Celso Furtado), na qual se afirma que o desenvolvimento entre nações é desigual e sempre tende a favorecer as nações mais ricas e poderosas diante das pobres. Esta teoria indica que as grandes nações teriam esferas de influência social, cultural, económico e político sobre outras, onde estabeleceriam dominância.


Mas temos também outra vertente, de cariz um pouco mais conservador e menos crítico, onde se afirma que as relações internacionais na verdade se baseiam numa interdependência (Keohane & Nye, 1977) fluida entre sociedades, de modo que não há diferença entre decisões dos Estados e das organizações privadas, e sim influência mútua e constante. Para os adeptos desta interpretação, os Estados-Nacionais não teriam maior ou menor poder sobre outros visto que num cenário de intensa globalização, onde empresas e a sociedade civil atuam cada vez mais de modo interconectado, são as relações entre sociedades que determinam a geopolítica e não os interesses dos Estados, puramente.  

Como um realista clássico, tendo a crer que existe certa confluência nas duas vertentes supracitadas. Do ponto de vista das nações desenvolvidas, cujas empresas são internacionalizadas o suficiente ao ponto de influir no teatro global, é claro que a interdependência interessa, pois estas grandes companhias projetam o poder nacional do país de origem pelo simples fato de controlar os recursos financeiros primários para o mesmo. Mas do ponto de vista da dependência, é notório que nações pouco industrializadas e muito focadas em commodities terão menor projeção internacional do que as industrializadas e desenvolvidas. Exemplo disso é a comparação entre Índia e Brasil. Entre os dois, quem o leitor(a) acha que é mais poderoso?


Força económica e força militar: a projeção de poder de um Estado-Nação


Ambos fazem parte dos BRICS (grupo de países emergentes formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). Ambos, em teoria, são superpotências em desenvolvimento. Porém, Índia tem um papel regional no sul asiático muito mais pertinente do que o Brasil tem na América do Sul. O PIB da Índia é de 2 trilhões e 900 bilhões de dólares, enquanto do Brasil é de 1,8 trilhões de dólares. O orçamento militar da Índia é de 66 bilhões de dólares e o do Brasil é de 27 bilhões. A Índia é um país que possui uma complexidade económica maior, com grande investimento em Tecnologias da Informação, já o Brasil cada vez mais se desindustrializa e aprofunda sua vocação agrícola[3].

Todos os Estados-Nacionais contemporâneos vivem sob a égide do capitalismo de escala internacional. Não há um só país do mundo que não esteja inserido na cadeia produtiva global. Alguns estão mais do que outros, mas todos estão (até Cuba e a Coreia do Norte). Neste sentido, o aspecto económico é fundamental no entendimento das relações entre Estados. É claro que seria muito pueril ou simplista afirmar que a economia é a única ponta de lança da geopolítica, mas todavia ela exerce um papel central. Por exemplo, não podemos falar das relações entre União Europeia e Rússia sem falar dos gasodutos que levam gás da Rússia a Europa. Não podemos falar das relações entre Brasil e China se não considerarmos que o país asiático é o maior parceiro comercial do Brasil.

Mas o que é a economia do século XXI e como isso afeta a geopolítica? Como vimos, trata-se de uma economia globalizada e baseada nas grandes transnacionais que produzem em escala global. Vivemos num mundo onde a produção não está mais dependente de um território ou dos recursos de um país, mas recebe abundantes facilidades de todas as partes do planeta. Esta cadeia produtiva, evidentemente, é afetada pelas taxas de importação e pela infraestrutura de cada país, podendo aumentar ou diminuir a sua intensidade. Em todo caso, pelo menos todas as nações do G20 possuem transacionais importantes. O que nos leva a questão-chave desta interpretação: o capitalismo financeiro.

Uma vez que o problema da alocação de recursos foi globalizado, o poder saiu da esfera puramente produtiva-local para a esfera financeira-global. Não importa mais tanto quem produz, mas sim quem financia quem produz. Neste sentido, estamos falando de um capitalismo fundamentalmente monetário. O poder, neste contexto, está nas moedas e suas taxas de juro. Segundo a Lei de Metcalfe, originada da computação, “o valor de um sistema de comunicação cresce na razão do quadrado do número de usuários do sistema”. Se aplicarmos a mesma lei para as moedas, veremos que o valor de uma moeda cresce ao passo que ela é utilizada e aceita como meio de troca. Isso significa que, para uma moeda ser forte, ela tem de ser confiável, divisível, aceita amplamente e lastreada em algum recurso ou suporte que garanta o seu valor real.

Na política financeira internacional, sabemos que uma moeda é poderosa quando ela é usada por muitos estados-nacionais como reserva de valor. Ou seja, as reservas internacionais dos países estão em alguma das moedas mais utilizadas do mundo, perfazendo assim o seu lastro para aquele país. Atualmente temos quatro moedas que estão inseridas neste patamar: o dólar norte-americano (representando mais de 61,82% das reservas mundiais), o Euro (representando 20,24%), o Yen japonês (com 5,25%) e a Libra Esterlina britânica (com 4,54%). A China vem logo em seguida, com o Yuan sendo usado por 1,95% das reservas. Os restantes 6,19% são outras moedas. Isso significa que para grande parte do mundo a moeda de maior valor é o dólar norte-americano, o que dá aos EUA a capacidade de gerir o valor de sua moeda e influenciar na produtividade de praticamente todo o planeta[4].

Seguindo por esta lógica, se são as moedas que controlam o fluxo financeiro e produtivo do mundo, precisamos nos perguntar: quem são as grandes nações? É fácil afirmar que os EUA é o maior país do mundo, quer seja em termos económicos ou militares. Mas o poder de um Estado-Nação não é medido apenas por estes dois fatores. Têm de se avaliar a conjuntura! A China, por exemplo, tem a terceira mais poderosa Força Armada do mundo e o segundo maior PIB do planeta, mas o Yuan (moeda chinesa) está lastreado em dólar norte-americano. Isso significa que, se a China tem um grande depósito de reservas internacionais em dólar, ela possui uma grande capacidade de liquidez financeira e pelo seu tamanho, ela pode afetar o dólar tanto quanto os próprios norte-americanos.

Diferente situação acontece diante do Euro. A União Europeia possui a segunda moeda de maior valor internacional, de modo que ela compete com o dólar, ao invés de depender dele. Ao competir com o dólar, porém, ela não está isenta de ser afetada pela valorização ou desvalorização da moeda norte-americana. Das grandes nações, resta-nos indagar sobre a Rússia, que embora não seja uma potência económica, é uma potência militar. No caso da Rússia, a moeda rublo está lastreada em 30% euro, 18,2% ouro e 14,2% em yuan (moeda chinesa). O restante está em dólar norte-americano, representando 37,6% das reservas russas[5].

Portanto, temos aqui a resposta para determinar quais são os principais atores da geopolítica internacional. Para classifica-los, utilizamos algumas referências. Na teoria das relações internacionais, nós temos potências regionais, potências médias, potências emergentes, estados falidos, estados fantoches, superpotências, hiperpotências e uma série de outras definições. Para deixar este artigo mais simples e mais didático, usarei apenas três definições: potência regional, superpotência e estado fantoche.

A.    Superpotência;

Uma superpotência é um Estado-Nacional cuja influência social, económica, cultural, política, militar e tecnológica é exercida em escala global. Ou seja, trata-se de um país que influencia os demais não importando região geográfica ou proximidade cultural, visto que seu poder é grande o suficiente para afetar a todos.

B.     Potência regional;

Uma potência regional é um Estado-Nação cuja influência social, económica, cultural, política, militar e tecnológica abrange a sua região geográfica. Normalmente ela está dentro do arco de influência das superpotências, mas exerce um papel importante no teatro das nações de modo mais ou menos independente.

C.     Estado fantoche;

Um Estado fantoche é um Estado-Nação que depende de uma potência regional ou global para tomar decisões estratégicas de cunho político, militar, diplomático, económico ou mesmo social e cultural. É comumente também conhecido como estado-cliente.

Análise de Conjuntura:

Por tais definições, podemos afirmar que até Janeiro de 2020 o mundo tinha pelo menos duas superpotências. Trata-se dos Estados Unidos da América e da China. Embora os EUA ainda seja o país mais poderoso do mundo, o poder chinês é muito maior do que os demais países e está em franca expansão. Logo, trata-se evidentemente de uma superpotência cuja expressão global é óbvia. Possui a terceira maior Força Armada do mundo com um orçamento de 237 bilhões de dólares e o segundo maior PIB do planeta.

A União Europeia não é um país, mas um bloco composto por pelo menos duas grandes potências: França e Alemanha. Como a política e economia destas nações dependem da União Europeia, iremos considerar para efeitos de análise como se a União Europeia fosse um país. Assim o sendo, podemos afirmar que se trata também de uma superpotência, visto que ela rivaliza com os EUA em tamanho de PIB e possui uma Força Armada competente (orçamento militar dos países da Zona do Euro chega a 200 bilhões de dólares).

Em termos de potências regionais, nós temos claramente os países emergentes (Brasil, Rússia, Índia, África do Sul e México), como também alguns países tradicionais como Japão e Reino Unido (pós-Brexit). Já quanto aos Estados fantoches, podemos citar a Síria (fantoche da Rússia), a Venezuela (também fantoche da Rússia), Coreia do Norte (fantoche da China), Israel (fantoche dos EUA), Coreia do Sul (fantoche dos EUA) e assim por diante. E porque estes países citados como fantoches se enquadram nesta nomenclatura? Porque de algum modo, todos eles demonstraram estar alinhados economicamente e estrategicamente com alguma superpotência. Não significa que sempre foram estados fantoches, mas neste momento se apresentam como tal.

O mesmo se sucede com o Brasil, que embora seja uma potência regional, deixa a desejar neste papel e possui um governo extremamente alinhado com os EUA, tornando-o potencialmente um Estado fantoche deste país.

Para facilitar o que foi dito anteriormente, observe o seguinte quadro interpretativo:

Países
Poder Económico
Poder Militar
Estatuto Internacional
EUA
US$ 21 trilhões
1º
SP
China
US$ 14 trilhões
3º
SP

U.E.

US$ 18 trilhões
FRA-7º, ITA 12º, ALE, 13º, ESP, 20º, POL, 21º
Membros da OTAN

PR
Rússia
US$ 1,6 trilhão
2º
PR
Japão
US$ 5,1 trilhão
5º
PR
Reino Unido
US$ 2,7 trilhão
8º
PR
Índia
US$ 2,9 trilhão
4º
PR
Brasil
US$ 1,8 trilhão
10º
PR
México
US$ 1,2 trilhão
38l
PR
Israel
US$ 387 bilhões
18º
EF
Irã
US$ 458 bilhões
14º
EF
Arábia Saudita
US$ 779 bilhões
17º
EF
Síria
Sem Dados
55º
EF
Venezuela
US$ 70 bilhões
41º
EF
Coreia do Norte
US$ 17 bilhões*
25º
EF
Coreia do Sul
US$ 1,6 trilhão
6º
EF
África do Sul
US$ 358 bilhões
29º
PR
Austrália
US$ 1,3 trilhão
19º
PR
Canadá
US$ 1,7 trilhão
24º
PR

Fontes: Fundo Monetário Internacional (2019), GlobalFirePower.com (2020). * Nações Unidas (2017)
OBS: SP (Superpotência), PR (Potência Regional), EF (Estado Fantoche).

O que este quadro nos sugere é que temos um xadrez internacional baseado no poder financeiro do dólar norte-americano (pertinente para a relação EUA-China), temos que o Euro é uma moeda importante (dentro do contexto da Zona do Euro e como moeda de reserva alternativa para a Rússia) e temos uma cadeia produtiva globalizada ligada ao conjunto dólar EUA-China e Euro-Países Emergentes. O que isso nos indica é que temos quatro polos de poder se formando na atualidade: o norte-americano, o chinês, o europeu e o russo. Destes quatro polos, dois são superpotências. Uma consolidada (EUA) e uma em franca expansão (China). As demais duas são grandes potências ou potências regionais que procuram encontrar um caminho alternativo no meio dos dois gigantes EUA e China. 

Os efeitos disso para a política internacional são diversas. Mas iremos nos ater neste artigo apenas ao efeito geopolítico e económico. As Forças Armadas são forças de dissuasão antes de serem forças efetivas, por isso não iremos nos preocupar em fazer comparações de poder bélico entre as superpotências, visto que não chegamos ainda neste patamar. Estamos hoje num conflito de poder fundamentado num entrave económico e potencializado pela crise do COVID-19. É este contexto e estes efeitos que iremos analisar daqui para frente, visando compreender de que maneira as potências (ou impérios) irão reagir a este imbróglio e como isso afetará países como o Brasil.



PARTE 2
Efeito Pandemia


PONTO DE SITUAÇÃO
Pré-Pandemia


Neste artigo simplificado, não estou entrando nos pormenores da política interna de cada país, não estou falando dos entraves históricos entre sociedades, também não estou falando dos tratados internacionais e tampouco dos detalhes que envolvem as relações entre os Estados-Nação. Como alertei no começo do artigo, a intenção é informativa, opinativa e contemplativa. Usando dados gerais e um pano de interpretação pessoal, busco integrar conhecimentos diversos no intuito de dar ao leitor um panorama geral do ponto de situação geopolítico.

Neste sentido, é importante salientar que não estamos levado em consideração questões ideológicas e político-sociais em nossa análise. Embora poderíamos aventar a hipótese de que governos de direita são alinhados automaticamente aos EUA e governos de esquerda tendem a serem simpáticos a China, isso seria muito simplista e incorreria em erros. Não iremos fazer julgamento de mérito de partidos ou de facções políticas, uma vez que do ponto de vista do realismo na teoria das relações internacionais, importa muito pouco o que os políticos dizem, mas sim o que os Estados fazem.



O que vimos anteriormente é um quadro geopolítico multipolar. Se ao final da Guerra Fria os EUA ascendeu como única superpotência global, tendo a União Soviética fracassado, vimos que ao longo dos 20 primeiros anos do século XXI a China consolidou o seu poder, ao passo que os EUA se atrapalhou em guerras no Oriente Médio (Afeganistão, Iraque), tensões com Coreia do Norte, tentativas fracassadas de um acordo de não-proliferação de armas nucleares com o Irã e adversários cada vez mais assertivos. A Rússia de Putin começou a adentrar espaços que EUA e União Europeia não estavam, quer por falha ou por desatenção. A China continuou o seu vertiginoso crescimento económico e foi pouco a pouco vampirizando toda a economia ocidental com a sua economia de escala barata e competitiva.

Claramente os EUA perdeu influência neste mundo e hoje se vê numa posição amarga. Seus principais ativos são o dólar e o grande poder de dissuasão derivado de sua Força Armada global, presente em todos os continentes e pronta para agir em qualquer circunstância. Isso garante que os EUA influencie aliados regionais importantes, como Israel, Arábia Saudita, Coreia do Sul e Japão. Na América Latina, vendo que China, União Europeia e Rússia ganhavam mais e mais espaço, os norte-americanos optaram por uma política mais agressiva, onde grupos de influência foram financiados por setores-chave dos EUA e o próprio governo americano ativamente praticou espionagem de cariz industrial e político (escândalo da NSA, denunciado por Edward Snowden).

A América Latina, dependente do comércio com China e EUA (especialmente no caso do Brasil) viu-se afetada diretamente pelo receio norte-americano de perder sua esfera de influência nas Américas diante da China, como também viu o avanço chinês sem precedentes. Aliado aos imbróglios internos das sociedades latinas, tivemos nos últimos anos explosões de rupturas sociais sensíveis: Venezuela, Argentina, Brasil, Chile, Bolívia. Todos afetados em algum grau pela intensidade dos interesses geopolíticos norte-americanos e chineses.

Internamente, o efeito do capitalismo financeiro e a perversão da escala produtiva global financiada pelo dólar e aproveitada pela China levou milhares de milhões de trabalhadores a perderem seus empregos nas nações ricas em detrimento da alocação de fábricas em países emergentes (como China, Índia etc.). Este efeito desagregador em massa dos empregos criou um grupo grande de cidadãos órfãos, quer do ponto de vista financeiro ou quer do ponto de vista identitário. Foi este vazio que, mais tarde explorado pelos populismos nos EUA e Reino Unido, geraria a eleição de Trump e o Brexit. Mas é a geopolítica norte-americana diante da economia de escala chinesa que tem levado tensão ao redor do mundo.

Na União Europeia, o maior desafio é estrutural. Há uma moeda única, há uma zona de livre comércio europeu, de livre-trânsito de pessoas, mas há uma máquina burocrática extremamente ineficiente e morosa, que impede necessárias reformas, como a fiscal, militar, de inteligência e política. A União Europeia não consegue atuar como bloco geopolítico plenamente pois não possui uma autoridade política amplamente reconhecida pelas demais potências. Seu ponto forte é a economia, muito avançada tecnologicamente e com o suporte de uma moeda poderosa globalmente. Do ponto de vista militar, a UE é dependente da OTAN (Aliança do Tratado do Atlântico Norte), reminiscente da Guerra Fria e cujo principal aliado e financiador é os EUA. Portanto, de certa forma, a União Europeia está atrelada aos EUA geopoliticamente e tal simbiose torna bastante conflituosas as tensões entre Europa e Rússia, assim como Europa e China.

A Rússia, por seu lado, tem como objetivo manter sua integridade económica e territorial. A política de Vladimir Putin é baseada em dois vetores: eficiência económica e união identitária. Não por acaso ele se sustenta numa aliança com a Igreja Ortodoxa Russa e uma tentativa de pacificar o passado czarista e o passado soviético, sendo ele próprio um ex-agente do KGB. Para a Rússia, a União Europeia é uma importante aliada económica, seja do ponto de vista monetário (o Euro), ou do ponto de vista do mercado consumidor. Como já dito antes, grande parte da exportação russa é destinada a Europa e os russos não podem jogar fora os bilhões de euros que entram em seus cofres via balança comercial. O problema de Putin e da Rússia é na verdade com a OTAN, que ameaça seus interesses identitários.

A Anexação da Crimeia e a Guerra em Donbass são dois exemplos da maior assertividade russa no cenário europeu. Claramente há uma tendência de Putin reunificar em torno da Rússia povos que já fizeram parte da União Soviética e que tenham algum tipo de simpatia ou identitarismo russo. Seu arco de atuação tem sido o Leste Europeu, o Oriente Médio (através do apoio a Assad na Síria) e participação na crise da Venezuela, dando suporte militar e económico a Nicolas Maduro.

Finalmente a China tem atuado por três vetores essenciais: a modernização da economia chinesa, numa gradual tentativa de passar do modelo de exportação barata para um modelo de alta tecnologia e consumo interno. O desafio para isso é que a imensa maioria de chineses são pobres ou em situação de semiescravidão, não possuindo recursos para integrar um forte mercado interno. Por isso, a economia chinesa ainda é muito dependente das exportações. Por ser dependente de exportações, a China é também dependente dos mercados consumidores europeus e americanos.

Já sendo a maior parceira comercial dos EUA, a China tem como segundo vetor de atuação o ambicioso projeto de reativar a antiga Rota da Seda, que liga a China ao Oriente Médio até a Europa, formando um grande cinturão de comércio entre seu país e os demais vizinhos na Eurásia. Na Ásia, a China projeta o seu poder geopolítico especialmente pelo chamado “Mar da China Meridional”, sendo este o terceiro vetor. Este mar no sul da China banha os países: Hong Kong, Macau, Taiwan, Filipinas, Malásia, Brunei, Indonésia, Singapura, Tailândia, Camboja e Vietname. Diversos países e os próprios EUA se refere a este Mar como águas internacionais, mas a China reclama para si a soberania do mesmo. Sua intenção é ter influência sobre as rotas marítimas da região e, com isso, ter controle sobre considerável parte do comércio internacional.


                                                       Surge o COVID-19


Na data em que este artigo foi escrito, pouco se sabe ao certo a origem do novo coronavírus. Há algumas versões, que incluem origem no Mercado Atacadista de Frutos do Mar de Huanan, perto da província de Wuhan, onde os primeiros casos foram registrados. Já o cientista e professor francês Luc Montagnier, prêmio Nobel de Medicina e descobridor do vírus do HIV afirmou que teria sequenciado o RNA do novo coronavírus e, depois de pesquisas, descobriu que ele se originou do laboratório de virologia de Wuhan. O que indiciaria que o vírus foi supostamente fabricado neste local.

O fato é que a China registrou o primeiro caso em 31 de Dezembro de 2019, embora só tenha colocado Wuhan em quarentena em 23 de Janeiro de 2020. Pouco a pouco novos casos foram surgindo fora da China até que a OMS finalmente declararia que se tratava de uma pandemia no dia 11 de Março de 2020. De lá até a data deste artigo, mais de 2 milhões de pessoas foram infectadas, causando mais de 150 mil mortes no mundo e com mais de 500 mil curadas. Sabe-se que uma vacina deverá existir, em tons otimistas, dentro de 1 ano e meio. Trata-se de um vírus novo, cuja população global ainda não tem imunidade e, por isso, é passível de ser contaminada. O vírus é contagioso e passa de pessoa para pessoa, como numa gripe comum.

Como se trata de um vírus novo e a sociedade mundial não tem imunidade ao mesmo, é necessário evitar que muitas pessoas se infectem ao mesmo tempo. Ainda que sejam poucos os casos de gravidade clínica e complicações, se muitos pegarem, os casos graves também tendem a aumentar, o que colocaria pressão sobre os sistemas de saúde em todo o planeta. A única solução que se mostrou efetiva foi o distanciamento social e a quarentena. Tal medida colocou pelo menos 40% da humanidade em confinamento caseiro, com restrições de circulação e países inteiramente fechados, quer para entrada ou saída. Pela primeira vez em muito tempo o mundo está lidando com um planeta de fronteiras fechadas.

Isso significa que cada país é responsável pela forma como lida com a pandemia. Embora a cooperação internacional seja necessária (a ONU e a OMS conclamam por isso), temos visto alguma solidariedade no nível Europeu (por causa da União Europeia) e no nível global entre algumas potências. Mesmo assim, tal solidariedade vem conjuntamente com um payoff geopolítico extremamente caro: aquele que melhor lidar com a pandemia irá ter automática autoridade diante das que não lidaram bem. Por isso a corrida hoje em dia é por ver quem está melhor lidando com a crise e de quem é a culpa pela mesma.

A pergunta é: quem irá prevalecer na pós-pandemia?

Neste exato momento o que temos visto é um conjunto de guerra de informação e tentativa de manipulação de dados de todas as partes. Não sabemos ao certo quantas pessoas estão realmente infectadas, não sabemos quais dados são realmente transparentes e realistas e não temos ideia de quem está realmente controlando a crise. Em teoria, China, Alemanha e Rússia estão conseguindo controlar mais do que os EUA, que a princípio está descontrolado. Mas isso é uma teoria, pois mesmo os dados destes países pode estar enviesado. O que podemos assegurar com certeza é que as medidas de lockdown e quarentena criaram um cenário de vigilância estatal permanente que não deve cessar.

O que a pandemia demonstrou é que todos os processos geopolíticos em andamento (os projetos de poder dos EUA, Europa, Rússia e China), começaram a acelerar. Os EUA vive um ano eleitoral e ao mesmo tempo é o pior país a lidar com a pandemia, tendo mais de 600 mil casos e 40 mil mortos a data deste artigo. Morre-se mais em Nova Iorque (atualmente com 13.869 mortes) do que em outros países inteiros. Fora isso, Trump tem agido num duplipensar constante acerca do isolamento social. Ele permite que os governadores façam aquilo que já fazem (ou seja, o isolamento), mas ao mesmo tempo ameaça reabrir o comércio, fechar o Senado, culpa a China, chamando o vírus de “chinese vírus” e culpabiliza também a própria OMS, acusando-a de conluio com a China.

A China, por sua vez, continua com os mesmos dados de dois meses atrás, dando a entender que o desenvolvimento da pandemia no país foi controlado plenamente. Eles não demoraram em propagar seu sucesso e logo se ofereceram como referência para ajudar outros países. O problema é que não se tem transparência sobre os dados chineses, especialmente depois que tantos jornalistas, médicos e denunciantes desapareceram no início da crise ao tentar alertar o mundo sobre a pandemia no país. O gráfico que indica a comparação entre casos do novo coronavírus entre EUA e China é bastante estranho:



Na União Europeia, os principais países são os que mais tem sofrido com a pandemia. França, Itália, Espanha e Alemanha possuem os maiores índices de casos. Contudo, é também a Alemanha que parece ter controlado o desenvolvimento de novas infecções e tem colocado em andamento diversos planos para a saída gradual do confinamento. A União Europeia também tem corrido contra o tempo para demonstrar maior solidariedade a nível europeu, em contraposição as rusgas geradas pela crise financeira de 2008. Uma das formas de se criar uma resposta coletiva do bloco europeu é um conjunto de medidas imediatas e futuras que visem resguardar a economia europeia e dividir as responsabilidades. Esta divisão de responsabilidades financeiras fez com que os ministros da economia da Holanda e Alemanha rejeitassem a ideia amplamente difundida dos “coronabonds”, ou seja, a mutualização de dívida pública entre todos os membros da União Europeia. Como tradicionalmente os países do norte tendem a ser mais austeros fiscalmente do que os do sul, estes ministros acusaram Espanha, Portugal e Itália de não terem fama de bons pagadores e que, por isso, a ideia de uma mutualização da dívida não ser tão interessante. Estes comentários levaram o Primeiro-ministro português a responder energeticamente e enfaticamente contra tais declarações, no que recebeu apoio de outros países, inclusive da França.

Tais rusgas parecem terem sido superadas, depois que o Parlamento europeu aprovou um plano de ajuda financeira no valor de 1 trilhão de euros, assim como está em andamento estudos para um “Novo Plano Marshall”, que visa a reconstrução da economia europeia como um todo na pós-pandemia. A verdade é que nenhum país europeu é capaz de passar pela pandemia e pela crise económica subsequente sozinha, de modo que apesar das rusgas internas, o conceito de uma União Europeia é cada vez mais valorizado por entre os governos e até mesmo entre os eurocéticos, que conclamam uma política de saúde pública para todo o bloco. Isso dá a entender que o futuro da União Europeia é de maior interconexão e aproximação, apesar dos já citados desafios estruturais e burocráticos.

Quanto a Rússia, novamente os dados são muito obscuros. Atualmente a Rússia tem registrado 42 mil casos, tendo 361 mortes e 3.291 curados. Sendo verdade, estes dados demostram que o país está conseguindo controlar a pandemia também. Porém, voltamos ao mesmo caso da China: não temos transparência suficiente para ter a certeza de que estes dados coadunam com a realidade. Mas como narrativa, poderá servir aos interesses de Putin em demonstrar que o país é competente o suficiente para controlar a pandemia e que os russos são mais capazes, por exemplo, do que os EUA e a Europa no combate ao COVID-19.

Todo este cenário nos indica o seguinte:



1º. A União Europeia está em sua própria bolha, lidando com a crise ao seu modo e tentando criar uma rede solidária entre os países do bloco e também a nível internacional. Apesar das rusgas internas, são as rusgas externas as mais dramáticas. A China foi acusada de enviar a Espanha milhares de testes que não funcionam. A França comprou da China milhares de máscaras que, no aeroporto, foram transviados para os EUA ao invés de seu destinatário original, a França. Os países da União Europeia também estão criando uma malha de proteção económica contra o capital chinês, que visa comprar empresas em crise por causa do coronavírus.

2º. A Rússia está em sua própria bolha também, tentando controlar a pandemia. O efeito imediato foi a paralisação das mudanças constitucionais que Putin estava empreendendo no país no intuito de permanecer no poder até 2036. O efeito de médio prazo disso ainda não está claro, mas a tendência é a Rússia primeiro tentar controlar o surto para, então, acelerar as mudanças políticas internas que assegurem o poder de Vladimir Putin.

3º. A China claramente está mais agressiva em sua política externa. Como dito anteriormente, os chineses sabem que dependem do comércio internacional para manter a sua economia de escala. Como este está em declínio por causa da quarentena global, o país asiático tem usado outras estratégias. Considerando que muitas economias entrarão em depressão, o capital chinês tenta a todo custo garantir o acesso aos recursos de países pobres e emergentes, especialmente na África e América Latina. Isso já criou rusgas também entre China e Europa, que para assegurar sua influência diante das ex-colónias africanas começou a perdoar dívidas e assegurar financiamento em euros aos países afetados. O jogo geopolítico da China também se apresenta na Ásia, onde ela tenta projetar o seu poder com maior efervescência diante de Coreia do Sul, Índia e Japão. O Japão, por exemplo, assim como a Europa, criou um fundo para repatriar empresas japonesas que atuavam na China e tem buscado evitar que o capital chinês entre no país. Neste momento é certo afirmar que a China quer promover o discurso de país responsável, eficiente e cooperativo durante a crise, buscando utilizar seu aporte financeiro para inserir-se mais fecundamente nas economias ao redor do planeta.

4º. Já os EUA tende a entrar numa recessão mais profunda do que a de 1929. Com a economia chinesa em queda e o mercado interno norte-americano paralisado, é possível que veremos uma corrida financeira para assegurar financiamento pós-pandemia. Desde o começo da crise sanitária global e do pânico dos mercados, o governo americano aprovou uma injeção de 2 trilhões de dólares num pacote de ajuda económica, fora o 1 trilhão que já foi injetado nos pregões. O desafio dos EUA é manter o nível de consumo elevado, uma vez que grande parte do PIB norte-americano é dependente de bens e serviços. Com a China em franca paralisação, a produção norte-americana também sofre um refreio. Para 2020, é possível que vejamos uma diminuição drástica na produção de riqueza e um número de falências bastante elevado.

O que estas informações sugerem, portanto, é que todo o planeta está numa situação mais ou menos similar. Isso significa que os efeitos da crise económica nos países será uníssono, de modo que se todos estão em maus lençóis, ninguém estará melhor do que ninguém de fato. É como uma competição para ver quem fica menos mal, não para ver quem fica bem. Neste caso, o menos mal é aquele que conseguir garantir recursos para uma alavancagem pós-pandemia, no que demanda uma manobra financeira robusta. Os únicos países que estão mais ou menos ensaiando esta alavancagem são EUA, China e União Europeia (se considerarmos como se fosse um país). O problema é que ao mesmo tempo em que todos planejam uma retomada, todos estão competindo para ver quem terá a melhor condição de alavancagem.

E aqui entra o jogo geopolítico. A China quer sair da pandemia como a grande financiadora global das economias quebradas, monopolizando assim os recursos financeiros destes países e fortalecendo a sua posição internacional, tanto do ponto de vista económico quanto político. Porém, e sabendo que este é o projeto chinês, Europa e demais países estão refreando o avanço do capital chinês, criando eles próprios planos de financiamento para suas empresas em crise. Os EUA já estava em guerra comercial com a China, de modo que o capital chinês já tinha e continuará a ter maior dificuldade de entrar no país de Donald Trump. Portanto, podemos afirmar que a tendência é a de um mundo mais radicalmente competitivo (e portanto menos solidário). Cada potência tentará ao seu próprio modo garantir a sobrevida económica pós-pandemia. Logo, é cada um no seu quadrado e uma rejeição enfática do comércio internacional como meio de funcionamento do capitalismo.

A lição que tiramos disso é que o efeito tangível da pandemia na geopolítica é na mudança drástica do capitalismo financeiro, de escala globalizante para financismo de blocos. Ou seja, cada bloco financeiro tentará sobreviver por conta própria, sem receber “ajuda” financeira dos demais blocos, visto que esta ajuda financeira poderia se tornar num grande elefante branco de domínio geopolítico mais à frente na alavancagem. EUA, União Europeia e China estão jogando seus jogos independentes uns dos outros. Portanto, há uma tendência ao isolacionismo momentâneo de alguns blocos, como também a uma diminuição imensa na escala da economia global. A globalização entrou, de fato, numa nova fase. Menos consumista, menos acelerada, e muito mais monetária. Se antes vivíamos o capitalismo financeiro, hoje vivemos uma guerra monetária.

Os efeitos disso no longo prazo ainda são incertos, mas as tendências são claras. A multipolarização se acelerou e os países fantoche ou regionais precisarão se adaptar a isso com rapidez. Dificilmente o real brasileiro, para usar o exemplo do Brasil como país-satélite dos EUA e potência regional, conseguirá se recuperar plenamente após esta pandemia. A indexação do real ao dólar norte-americano deve se aprofundar, com um domínio mais profundo dos EUA sobre o Brasil, o que pode gerar um efeito sinofóbico “fobia da China”, especialmente materializado pela maior aproximação do governo Bolsonaro aos interesses norte-americanos. Do ponto de vista brasileiro isso seria um desastre económico colossal, visto que a China é o maior parceiro comercial do país e um dos principais importadores dos produtos nacionais. Se a economia brasileira for transferida para os interesses norte-americanos, podemos esperar um encolhimento mais dramático do poder de compra do real, maior desemprego, menos riqueza e outras dificuldades que não cabem neste texto.

Conclusão:

I.                   O mundo deixou de estar no capitalismo financeiro globalizado para entrar na guerra monetária de blocos;

II.                Veremos um retorno do protecionismo e das taxas de importação, numa clara tendência de concentração de capital nos blocos: EUA, União Europeia e China;

III.             Não se trata de quem produz, mas de quem financia quem produz. É uma nova etapa do capitalismo financeiro: uma guerra monetária visando o controle dos recursos de financiamento;

IV.             Isso levará os blocos a intervirem economicamente e financeiramente nos mercados de todo o planeta. Como numa guerra, aonde um puder entrar, ele fará de tudo para entrar.

V.                Esta intensa disputa financeira criará rusgas indissolúveis entre os blocos, gerando certo isolacionismo e também modificando as estratégias e abordagens geopolíticas de cada bloco.

VI.             A depender dos resultados, as economias mais frágeis são a norte-americana e a chinesa.

O fato da China não ter um mercado interno forte o suficiente para substituir a demanda internacional que financiava sua economia de exportação é indício de que dificilmente ela conseguirá se recuperar da queda brusca de seu PIB. A recessão na China em 2020 pode ser uma das maiores da história, e para sobreviver a única coisa que os chineses podem fazer é comprar os recursos produtivos internacionais para ter “bala na agulha” durante a alavancagem da economia internacional. O problema é que, se os demais blocos estão se preparando para se proteger desta ofensiva financeira chinesa, então a China não terá sucesso em sua tentativa de refrear a recessão e depressão, fazendo com que o país entre em uma profunda crise económica e potencialmente social e política.


Embora a China tenha a maior parte de manufatura do planeta (no valor de 4 trilhões de dólares), estas manufaturas não são de alta tecnologia (ver quadro cima), mas de maquinário elétrico, roupas, partes de automóveis, mobília, iluminação, bolsas, carteiras e afins. Produtos muitas vezes baratos, pois o custo de produção na China é muito barato, e de baixa qualidade, visando a exportação em larga escala. A China é o terceiro maior exportador do mundo, junto de EUA e União Europeia. Competindo pelo mercado global junto a estes outros dois blocos, é notório que num cenário de guerra monetária, aumento nas taxas de importação e diminuição da economia de escala, a China comece a entrar num franco declínio de seu modelo. Como ela responderá a este declínio, ainda é uma incógnita. Mas o certo é que veremos uma intensa disputa entre China, EUA e União Europeia nos próximos tempos e um ambiente geopolítico muito mais hostil.

Quanto aos Estados Unidos, é importante salientar que a dívida pública norte-americana está em seu mais alto patamar histórico (no valor de 22 trilhões de dólares), além de ter uma moeda cujo retorno financeiro depende da saúde fiscal do planeta. Estando a China em declínio e a UE fechada em si mesma, além do resto do mundo em recessão, os EUA terá muita dificuldade de gerar sua retomada, o que pode criar empecilhos geopolíticos ainda inconclusivos. 

Mais análises e atualizações, a qualquer momento. 

Obigado pela leitura, 

Boa noite, e boa sorte


Fontes: 

[2] O que é geopolítica? - J.W.Vesentini
[3] World Economic Outlook Database, October 2019
[4] https://howmuch.net/ - Outubro 2019
[5] The Central Bank of the Russian Federation, 2019




Sasha Rupar Lamounier van Lammeren
Jornalista e Analista

Porto, Portugal
20 de Abril de 2020



09/07/2019

O FIM DAQUILO QUE NÃO COMEÇOU



O FIM DAQUILO QUE NÃO COMEÇOU
A morte prematura do Liberalismo Clássico brasileiro e o sonho Don Quixotesco


Uma das minhas maiores qualidades (ou defeitos, em alguns casos), é a teimosia. Eu teimo naquilo que acredito a todo custo, não importa se terei de brigar com meio mundo por isso. Desde 2013 eu tenho defendido as mesmas posições pela Internet, tendo recebido apoio de uns e sendo atacado por outros tantos. Neste período eu criei um grupo chamado Liberalismo Clássico, que chegou a contar no auge com 8 mil membros. Uma página, chamada Liberalismo Clássico Brasil, que chegou a ter 5.500 curtidas. E neste processo, passei por um pouco de tudo. Fui convidado a integrar os quadros do MBL em 2015.

Me desliguei depois de perceber do que se tratava o MBL. Fui publicamente contra o impeachment de Dilma Rousseff, por considera-lo um golpe parlamentar. Fui contra a afobação da Lava Jato e dos anti-petistas na condenação e prisão do ex-presidente Lula. Defendi e defendo Ciro Gomes como uma alternativa mais progressista para tirar o Brasil da polarização entre PT e anti-petismo. Defendo um liberalismo clássico mais próximo das propostas utilitárias de John Stuart Mill, conjuntamente com visões económicas mais condizentes com Alexander Hamilton e a escola americana de economia (também fundamentalmente liberal).

No entanto, como o Brasil está polarizado desde 2013 e parece que esta é a nova regra do jogo, qualquer posição que você tenha que destoe um pouco de esquerda ou direita, será vista automaticamente como algo “do outro time”. As posições acima descritas jamais foram debatidas pelos libertários e neoconservadores de Internet, pois eles sempre se negaram a debater comigo. Queriam viver em suas bolhas acusatórias e de convicção, pois era mais fácil defender assim seus ideais frágeis. Ao invés de debater a escola americana de Hamilton, ou de debater as propostas sociais de Mill, preferiram me rotular como petista, esquerdista, comunista, cirista e assim por diante. Mesmo eu já tendo postado textos e mais textos onde justifico cada uma das posições.


Estes fatos me levam a refletir muito seriamente sobre o futuro das minhas bandeiras no cenário brasileiro. Como sempre disse, eu me declaro um liberal clássico de tendência nacional-liberal. Sim, se você nunca ouviu falar, o nacional-liberalismo é uma vertente do liberalismo clássico que defende as mesmas bandeiras dos clássicos, mas com um maior foco nos interesses nacionais. Do ponto de vista social, eu posso ser considerado um liberal social, tal como Stuart Mill o foi. Mas isso não significa de nenhum modo contradição ou antagonismo aos valores liberais clássicos, que são os fundamentos do liberalismo social. Eu sempre mantive a coerência principiológica, sempre mantive os mesmos valores. Mas o problema é que no Brasil, só há duas possibilidades nas discussões sociais e económicas: total estatismo ou total privatização. Total direita ou total esquerda. Ao menos é o que parece na Internet.

Os minions e incels que vivem enfurnados nas redes sociais não parecem ter a maturidade para encontrar um meio-termo não-polarizado dos temas em debate. Pelo contrário, para eles é bom, é necessário reforçar uma identidade de grupo, afinal é assim que eles se sentem representados e motivados para debater “política e economia”. A motivação nas redes sociais não é o conhecimento, mas “vencer o outro”. Mesmo que você esteja errado. Humildade, reconhecimento, educação são qualidades nulas ou muito raras. E infelizmente foram estes valores que acabaram criando todo este tumulto político e social que o Brasil vive desde 2013, quando comecei minhas atividades na Internet.

O que elegeu Bolsonaro foi, em grande parte, esta mentalidade polarizadora e ignorante. O culto a ignorância, aliás, é a maior marca do Brasil nos últimos tempos. Ninguém tem vontade de debater a divergência visando um meio-termo bom para todos. Não, o objetivo é a hegemonia daquele que for mais cansativo e teimoso. E olha que eu sou teimoso. A questão é que já percebi há algum tempo que a minha teimosia não dá conta do recado. Não é possível ser teimoso pelo conhecimento diante daqueles que são teimosos pela ignorância. Os ignorantes sempre serão a maioria. E se tem outra qualidade que possuo é o de reconhecer quando sou minoria. De fato, diante dos minions e incels, sou minoria. Somos, caso o leitor se identifique com minhas palavras.

Um dos principais fundamentos do liberalismo clássico é o respeito as instituições e a tolerância da divergência. Não tem como falar de liberdade se estes dois pressupostos não existirem. Pois bem, a ânsia ignorante de um povo polarizado leva as instituições ao erro, leva a credibilidade de toda uma nação cair por terra diante das justiças injustas e dos poderes desequilibrados. Montesquieu, se fosse vivo, temeria muito o que acontece no Brasil hoje. A passos largos caminhamos para mais e mais autoritarismo. E não porque temos militares no poder, mas sim porque temos uma política judicializada, onde juízes e promotores podem fazer tudo o que querem a revelia da própria lei, pois lutam por um “bem maior”. A tese messiânica e dos fins que justifiquem os meios são típicas de autoritários e antiliberais.

Sem tolerância e sem zelo as regras do jogo democrático, do jogo institucional onde se respeita a lei, onde se respeita o in dúbio pro reo, não é possível o liberalismo. Nem o clássico, nem o nacional, nem o social e nem nenhum outro tipo de liberalismo verdadeiro. Aquilo que sobra neste cenário, os autoproclamados libertários e neoconservadores, estão tão longe do liberalismo quanto comunistas e fascistas. Utópicos, eles não querem preservar instituições e divergências, mas sim homogeneizar o discurso. Ou se está com eles ou contra eles, pura e simplesmente. Como podemos lutar contra isso, quando estamos sozinhos? Num lado da esquerda temos autoritários que são alimentados pelos autoritários da direita, e a direita alimenta os ranços autoritários da esquerda. Se torna um círculo vicioso quase impossível de destravar.

Eu penso que o liberalismo clássico teve uma grande oportunidade em 2013. Começou sendo discutido e posto em pauta. As pessoas tinham interesse pelos temas e queriam realmente entender o que era o liberalismo. Mas esta semente foi sendo envenenada pela polarização, dia após dia, mês após mês, ano após ano. A eleição de Jair Bolsonaro praticamente anulou o liberalismo nascente de 2013, pois em seu governo, de discurso e tendência autoritária, as pautas liberais foram assumidas como truísmos libertários inconsequentes. Paulo Guedes e seu afã privatista e anti-estatal destruiu as bases de qualquer debate sincero e razoável sobre a realidade da economia brasileira. Não se fala mais de abertura económica como parte de um projeto maior da economia nacional, mas como uma “bandeira ideológica”. Ou se defende a abertura ou você é um comunista.  

Não há mais nenhum espaço, ao menos nas redes sociais, onde se possa debater ideias livremente. E isso significa que aquilo que estava nascendo já morreu e não tem mais volta. As ideias liberais foram roubadas por grupos violentos e autoritários libertários e neoconservadores e tudo o que diz respeito ao liberalismo já está previamente pautado por eles. Não há debate. Há embate. Logo, não me resta saída se não reconhecer e declarar que o liberalismo clássico está morto no Brasil. Morto antes de nascer. E seus assassinos são a intolerância, a ignorância e o autoritarismo.

Em 2018 eu arquivei o grupo Liberalismo Clássico, com 8 mil membros. E o fiz para repensar muita coisa sobre este assunto e impedir que a eleição do ano passado polarizasse ainda mais os ânimos no grupo. Fiquei com a página. Mas a página sofreu a polarização, assim como todos os outros grupos de tema liberalismo pelas redes sociais. Até recentemente eu pensava em desarquivar o grupo, mas hoje vejo que não tem como. Quer seja o grupo, a página ou eu mesmo, não há espaço para debate. Não há enquadramento onde eu possa ser ouvido e onde eu possa ouvir. Não existe espaço para um liberal clássico raiz no Brasil. Essa triste realidade esclarece que é hora de eu abandonar o barco.

Teimei em não dizer estas palavras, pois mesmo vivendo fora do Brasil, eu fiquei seis anos tentando discutir os problemas do país com meus compatriotas. Tentei genuinamente, as vezes com maior maleabilidade e outras de forma mais teimosa, encontrar caminhos para o liberalismo na realidade brasileira. Quantas pessoas não me conhecem por causa dos bons debates que já tivemos antes? Quantos amigos e conhecidos não fiz neste período? Mas há momentos onde temos de reconhecer a realidade e abandonar o sonho don quixotesco.

Estou em paz com minha consciência, embora aflito com a situação do país e seu dantesco futuro. Essa mensagem é um desabafo e um adeus das redes sociais e da militância política brasileira. Vou continuar discutindo e falando sobre o Brasil com quem merece. Nas redes, porém, não contem mais comigo para nada, pois não posso vender aquilo que ninguém quer comprar. O Brasil segue o seu destino e eu sigo o meu. 

"Deus, que me conceda esses últimos desejos — Paz e Prosperidade para o Brasil."
(D. Pedro II)




Sasha Lamounier
Porto, Portugal

09 de Julho de 2019




01/12/2018

O Futuro da Economia Brasileira


O Futuro da Economia Brasileira
Um modelo macroeconómico

Por
Sasha Lamounier


Este texto tem por objetivo clarificar a situação da economia brasileira, fazendo uso de explicações de economistas, gráficos e estatísticas oficiais provenientes de institutos sérios e do próprio Governo Federal. Este artigo não pretende ser um panfleto ideológico, embora seu autor evidentemente tenha uma opinião sobre o assunto e a expõe em todo o corpo do texto. O objetivo é que o leitor, desde o economista até o mais leigo, tenha uma mínima compreensão crítica do tema e perceba de fato o que irá acontecer com seu país e em sua vida nos próximos anos.

Estrutura do artigo

1.      Como funciona a economia contemporânea;
2.      Fundamentos básicos da produtividade e da formação bruta de capital;
3.      O modelo dos governos recentes e do futuro novo governo (Bolsonaro-Guedes);
4.      Perspetivas e estratégias: uma crítica construtiva;



Ø  Como funciona a economia contemporânea;

Podemos classificar a economia global em três setores: o mercado financeiro, o mercado produtivo e o mercado de consumo. Cada um destes mercados está direta ou indiretamente relacionado ao outro e, como se diz no famoso mote economês, “em economia tudo tem a ver com tudo”. Para compreender isso, vamos definir o que é cada mercado e como eles funcionam.

A). Mercado Financeiro;

Quando você ouve falar de Bolsa de Valores ou quando os bancos (privados e públicos) falam em investimentos financeiros, na verdade estão falando de alocação pura de recursos financeiros (dinheiro) naquilo que gera mais ou menos rendimento. A Bolsa de Valores é onde pedacinhos de empresas e instituições são vendidas para investidores privados do mundo todo, criando assim um preço de mercado deste pedaço da empresa. O pedaço é conhecido como “ação” (share, em inglês) e é vendido todos os dias nos pregões das Bolas do mundo.

Os bancos, por sua vez, compram e vendem papéis de dívida pública, investem em renda fixa, previdência, fundos e assim por diante. Trata-se de um mercado baseado tão e somente na fluidez financeira, por isso se chama “mercado financeiro”. Quando uma economia é próspera, os mercados financeiros também tendem a ser prósperos, com muitas oportunidades de investimento e rendimento. Na prática, no entanto, fundos de investimentos e bancos monopolizam o mercado financeiro, impedindo que a sociedade entre neste mercado e participe da produção e distribuição de riqueza. Este é um problema que teremos de tratar ao longo deste texto.

B). Mercado produtivo;

O mercado produtivo, por sua vez, são os empreendimentos, os negócios que produzem algum bem ou serviço de valor na sociedade. E para tanto, há diversos e diversos nichos de mercado dentro do mercado produtivo. Temos o mercado de tecnologia, o de manteiga, o de sapatos, o de carros, o de livros e assim por diante. Cada um deles com suas determinadas características e necessidades. O mercado produtivo pode ser dividido em uma cadeia produtiva de três grandes grupos: matéria-prima (commodity), indústria e bens e serviços.

O mercado de commodity é fundamentado em um grupo de produtos que tem pouca ou quase nenhum nível de industrialização. São aqueles produtos vendidos em seu estado puro, ou bruto, tais como petróleo, carvão, trigo, algodão e assim por diante. Na cadeia produtiva, tais produtos funcionam como instrumento da indústria, que trabalha estes produtos e os transforma em derivados, como combustível, pão, tecidos etc. Em seguida, o mercado de serviços é onde os produtos da industria são comercializados. Então estamos falando de padarias onde o pão é vendido, lojas de moda onde roupas são vendidas, postos da gasolina onde o combustível é vendido e assim sucessivamente.

Essa cadeia produtiva também cria outro conceito importante da economia denominado “divisão internacional do trabalho”. Ou seja, dado que temos diferentes grupos da produção internacional, temos também diferentes grupos de atuação do mercado de trabalho. Na agricultura temos o agricultor, na indústria temos o operário e no setor de serviços temos o vendedor, por exemplo. Cada posto de trabalho perfaz uma divisão internacional do trabalho (alocação de recursos humanos internacionais) e tanto a especialização quanto as vantagens competitivas engendram o estímulo que os grupos produtivos necessitam para movimentar as cadeias produtivas.

C). Mercado de consumo;

O mercado de consumo, por sua vez, é o ambiente onde os produtos, bens e serviços das três cadeias produtivas são comercializados. O agricultor só pode vender seu trigo se tiver consumidores, do mesmo modo o industrial e o vendedor de loja. E para existir consumo, é necessário existir renda. Afinal de contas, o grosso da economia não funciona mais pelo processo de escambo (ou trocas de produtos), mas de escala. Se estamos falando de economia de escala, estamos falando de escoamento de produção e de lucratividade do mesmo.



Aqui entra diversos fatores que demandam atenção. Para que o consumo seja possível, é necessário a geração de postos de trabalho assalariado. E para que existam postos de trabalho, os setores da economia precisam ter disposição para investimento. Todo investimento é um risco, pois é o desprendimento de um recurso financeiro em favor de uma aposta de mercado. Por exemplo, uma determinada empresa só irá construir uma nova fábrica se esta fábrica gerar lucro para sua empresa. Se não o fizer, esta empresa preferirá ganhar recursos no mercado financeiro (de ações) do que na produção (fábrica).

Isso significa que nem sempre quando o mercado financeiro vai bem o mercado produtivo também vai. Pois se os agentes de mercado (consumidores e investidores) são racionais (um dos princípios da economia) e tendem a tomar as atitudes mais lógicas a depender do número de informação disponíveis, então o empresário ou investidor irá colocar seu dinheiro onde dá lucro e nada mais do que isso.

O mercado consumidor, portanto, é o que todos compram e vendem em todos os mercados acima descritos. Tanto na cadeia produtiva, quando no mercado financeiro. Um investidor que compra uma ação de uma empresa está agindo como consumidor. A diferença é que ele não está comprando um produto de uso objetivo, mas sim um investimento. E todo investimento só é válido se ele lhe gerar lucro. Aqui entra outros conceitos da economia, como inflação, estabilidade do mercado, simetria de informação e assim por diante. O importante é que o leitor se lembre de que “mercado consumidor” não é apenas ele que vai numa loja e compra uma roupa nova. Mas tudo o que é vendido e comprado em todos os mercados globais.

Este artigo ficaria imenso se eu tentasse resumir todos os conceitos da economia para o leitor. Eu parto do pressuposto de que o leitor sabe que cada país tem uma moeda e que o preço desta moeda é o câmbio. Que sabe também que a divisão internacional do trabalho modifica a estrutura produtiva de um país e suas potencialidades no mercado financeiro, gerando incentivos ou desincentivos para o investimento privado nacional frente ao investimento (e interesses) privados internacionais. Creio que o leitor também sabe o que são instituições financeiras (bancos, fundos de investimento) e instituições produtivas (empresas, indústrias etc.).

Posto isso, vamos adiantar o tema para o segundo composto teórico que gostaria de explicar e fundamentar bem. Trata-se dos conceitos de “produtividade” e “formação bruta de capital”. O leitor já sabe o que é produtividade, tendo em conta o pequeno resumo em “mercados de produção”. Agora iremos investigar o que gera a produtividade das nações e como uma sociedade pode formar capital para consumo e investimento interno, visando deste modo complexar sua cadeia produtiva e gerar mais riqueza.


Ø  Fundamentos básicos da produtividade e da formação bruta de capital;

Para que qualquer coisa seja produzida, é necessário um conjunto de fatores. Por exemplo, para que uma empresa construa uma fábrica, é necessário capital, uma dada facilidade de infraestrutura para o escoamento de produção, é necessário mão-de-obra para o trabalho, é necessário previamente um mercado consumidor alvo para que o produto fabricado seja vendido e assim por diante. Então quando uma empresa (nacional ou estrangeira) pensa em investir diretamente na nossa economia, a primeira coisa que ela vê são as condições do investimento e se vale ou não a pena o risco.

Neste sentido, produtividade está diretamente relacionado a malha produtiva de um país. Os insumos são mais baratos ou mais caros? Há facilidade ou dificuldade para a alocação de recursos? Existe capacidade produtiva ou não? Se a resposta for negativa para duas destas três perguntas, a empresa não irá investir em uma nova fábrica, por exemplo. Então temos de considerar estes fatores. Mas o leitor poderá dizer: se a economia está cada vez mais globalizada, não precisamos nos preocupar com malha produtiva, apenas em aprofundar nossas vantagens competitivas e deixar os investidores construírem fábricas em outros países.

Aqui entra o fator da formação bruta de capital. Digamos que o leitor está certo e que de fato não é necessário se preocupar com industrialização, mas sim com as vantagens competitivas de nichos de mercado inseridos na cadeia produtiva internacional. Isso significa que um país como o Brasil, que possui vantagens em matéria-prima deve favorecer seus negócios em commodity e deixar a produtividade industrial de lado. No entanto, de onde vem o investimento dos grandes produtores de matéria-prima?

Diferentes mercados de commodity tem diferentes necessidades e desafios. O mercado do petróleo, por exemplo, é muito favorecido quando o preço do petróleo está alto. Mas quando ele tem uma queda brusca, todos os negócios em petróleo sofrem perdas as vezes irreparáveis. Do mesmo modo, na agricultura, é necessário mercado consumidor em escala para alimentar toda essa gente, gerando valor no produto ofertado. Então se o Brasil exporta muita soja, o preço da soja deve se manter mais ou menos estável para que os negócios continuem firmes.

Num cenário hipotético onde os preços se mantém constantes, portanto estáveis, eu pergunto: qual é o incentivo para o investidor tirar seu dinheiro de um negócio lucrativo para alocar em outro? Nenhum! Se o Brasil ignorasse sua indústria, seríamos uma verdadeira grande fazenda voltada para a economia de escala (internacional) e pouco para o nacional. Pois o que daria lucro aos agricultores e pecuaristas seria a exportação (onde se atinge mais consumidores) e menos o mercado interno, onde há dificuldades para manter os preços competitivos.

O que aconteceria com uma economia baseada apenas em commodity? Bem, a malha produtiva seria inteiramente voltada a beneficiar investimentos em agronegócio. Então mesmo que se abra comercialmente o país, o investidor industrial estrangeiro não irá abrir uma nova fábrica no Brasil, pois os custos serão demasiados e o investimento não valerá a pena. Investidores da agropecuária até poderiam investir no Brasil, comprando terras e criando novas oportunidades de negócios (foi o que o governo Dilma fez ao vender terras para a China). Mas, isso significaria entrar em rota de colisão com os grandes produtores nacionais e sua lucratividade. Então não é tão simples quanto parece.

A formação bruta de capital (que significa a capacidade de uma sociedade gerar renda para consumo e investimento), num país dependente de commodity, estaria inteiramente comprometida, pois só haveria dois mercados para o dinheiro escoar: agronegócio e setor de serviços. O setor de serviços é todo aquele conjunto de empreendimentos onde o produto final é vendido. Então grande parte seria produzido fora (já que um Brasil dependente de commodities não teria indústria suficiente para a demanda interna), para então ser vendido domesticamente. Se os brasileiros não conseguirem investir bem seu dinheiro e terem altas margens de lucros, também não conseguirão formar dinheiro para novos investimentos. O que significa que sua condição ficaria engessada, favorecendo mercados produtivos e financeiros internacionais, ao passo que o mercado interno ficaria na dependência do agronegócio e dos serviços. O risco da desindustrialização, portanto, é o empobrecimento da sociedade como um todo, aprofundando desigualdades sociais e impedindo a geração de riqueza.




Os grandes bancos tem grandes margens de lucro, pois o spread bancário e suas taxas é favorecido em detrimento das perdas de seus investidores (poupadores). Então por exemplo, quando você investe em COE (Certificado de Operação Estruturada), apostando numa possibilidade de rendimento alto e seguro, não lhe é dito qual a chance de realmente acontecer este rendimento. E se você investe 100 reais em 2018 para, no pior dos casos, receber de volta 100 reais em 2023, você perdeu dinheiro pois teve um montante que ficou preso enquanto rendimento artificial por anos, gerando rendimento apenas para o banco em altas taxas e spread. Este processo acontece aos montes no sistema bancário brasileiro e impedem a formação bruta de capital dos poupadores-investidores de pequeno porte.

Os grandes investidores, que são poucos e que fazem grandes fortunas, investem diretamente na operação financeira que dá retorno direto, sem intermediários. Por exemplo, 72% de todo o dinheiro investido no mercado financeiro brasileiro vai direto para dívida pública, pois é ali que o rendimento acontece. Oras, ao invés de você investir seu dinheiro no banco e nas propostas que o banco lhe oferece, porque você não investe diretamente no tesouro? Os bancos não dão essa informação ao pequeno poupador. Seus ganhos seriam muito mais altos e não haveria o malabarismo que os bancos fazem para render em cima do seu dinheiro, que ficaria preso por um tempo em benefício do banco.


Isso é só um exemplo para mostrar como que a sociedade brasileira é enganada em sua já baixa tentativa de formação de capital e como que vendem um pacote de liberalização da economia, sem dizer realmente o que isso significa. Precisamos aprofundar estes estudos e é por isso que, no próximo tópico, procurarei dar um resumo do que foi feito pelos últimos governos e o que podemos esperar do próximo. Antes, observe estes dados e vídeos:




Endividamento das Famílias brasileiras








Ø  O modelo dos governos recentes e do futuro novo governo (Bolsonaro-Guedes);

Antes de entrarmos na questão do que os governos recentes fizeram na economia brasileira e do que Bolsonaro promete, observe os seguintes mapas:


Segundo a EMBRAPA, o bioma da Amazônia é um deserto sem a sua floresta. Trata-se de uma biodiversidade que se sustenta por si mesma. Ao desmatar, não há terra produtiva em todo o perímetro da Amazônia. O Cerrado é também improdutivo, podendo a terra ser trabalhada através de uma série de processos caros e demorados que somente grandes empresas e grandes agricultores podem arcar. Fora isso, temos a Caatinga que é um deserto improdutivo e que, seguindo a mesma lógica do Cerrado, pode se tornar produtiva se houver a infusão de processos caros de trato da terra. O grosso da produção agropecuária brasileira se concentra nos Pampas e no bioma da Mata Atlântica, onde também a maior parte da população brasileira se concentra. Isso se mostra claramente no próximo mapa:


As regiões em amarelo representam todas as propriedades agrárias (visando o agronegócio ou a pecuária) do Brasil em atividade neste momento. Em vermelho, estão os centros urbanos. E por falar em centros urbanos, onde está concentrada a produção industrial brasileira?


O leitor percebe que a produção nacional, que já é pouca, está concentrada no Sudeste e no Sul, com importante participação do Nordeste. Se tivéssemos de resumir o Brasil seria nisso: um país absolutamente costeiro com um interior inexplorado pela falta de recursos e capital. Mas podemos ir além. A malha ferroviária de um país diz muito sobre sua malha produtiva e capacidade de escoamento de produção. Países como EUA, Índia, China, com territórios continentais como o Brasil, possuem malhas ferroviárias muito desenvolvidas. A título de comparação, veja a malha ferroviária chinesa:


E agora compare com a do Brasil:


Nosso mapa rodoviário, no entanto, é bem maior e demonstra o quanto dependentes de rodovias a infraestrutura brasileira está:


O que isso significa? A dependência de rodovias significa que todo o escoamento de produção brasileiro (especialmente do setor de agropecuária) é via rodovias, tornando mais custoso e demorado na alocação de recursos agrícolas. Se houvesse uma maior malha ferroviária, no entanto, haveriam pelo menos os seguintes benefícios:

·         Grande capacidade de armazenamento e transporte de cargas.
·         Capacidade de deslocar grandes volumes a um baixo consumo de combustível (4 vezes menor do que no rodoviário).
·         O custo médio por distância Km/tonelada é significativamente mais baixo se comparado aos outros meios de transporte de cargas.
·         Não encontra problemas nas vias de locomoção, visto que as condições dos trilhos ferroviários encontram-se sempre em ótimos estados operacionais, e a sua manutenção é periodicamente realizada.
·         Menor risco de danos à carga por conta de fatores externos (roubos, furtos e acidentes).
·         A Redução de custos influencia positivamente nos custos de produção.

Então se até mesmo para o nosso forte, que é o setor de commodities, a malha rodoviária significa custos consideráveis, imagine para a produção industrial, onde temos menos incentivos ainda, com pouca mão-de-obra qualificada e pouca infraestrutura. 



 Governos e seus feitos (e defeitos)


Durante os governos FHC e Lula 1, o Governo Federal teve como prioridade a estabilidade financeira. Ou seja, a garantia de que a moeda se manteria mais ou menos estável diante das crises internacionais e que o ambiente produtivo no país se manteria equânime, de modo a favorecer setores-chave da economia brasileira e a produtividade interna. No período Lula, tivemos um boom nos preços das commodities, que favoreceu em grande escala os produtos brasileiros. Houve alguma tentativa de investimento em infraestrutura no Programa de Aceleração do Crescimento 1 e 2 e a promoção de uma nova política macroeconómica, visando estimular a produtividade interna.

O grande erro do governo Lula 2 e dos governos Dilma foi que, nesta tentativa de se estimular a produtividade interna, não foi levado em conta que não tínhamos formação bruta de capital, afinal o boom das commodities foi aproveitado para favorecer um boom de consumo no setor de serviços. Algo que mais tarde geraria uma crise de endividamento. O bem-estar de muita gente melhorou, mas isso não significou produção de riqueza e tampouco capacidade de investimento da parte da sociedade civil e dos investidores nacionais. A economia ficou engessada. Especialmente com as barreiras comerciais levantadas em 2011 e 2012 pelo governo Dilma visando estimular os produtores internos.

Faltou visão aos governos petistas para formar uma malha produtiva que pudesse beneficiar, no médio prazo, a formação de capital e a produtividade nacional. Em 2016 houve o impeachment e o vice-presidente Michel Temer assume diante de uma grande crise financeira (crise de confiança na moeda e no mercado brasileiro, alimentado por uma pós-crise nos preços das commodities) com um discurso liberalizante. Temer aposta numa tentativa incipiente e superficial de diminuir o Custo Brasil (denominação genérica dada a uma série de custos de produção, ou despesas incidentes sobre a produção, que tornam difícil ou desvantajoso para o exportador brasileiro colocar seus produtos no mercado internacional, ou então tornam inviável ao produtor nacional competir com os produtos importados).

No entanto, a crise de confiança permaneceu, dada a instabilidade política e as diversas greves e manifestações, sem falar das denúncias de corrupção, que poderiam colocar em risco reformas consideradas importantes pelo mercado financeiro. Isso porque o mercado financeiro (internacional e nacional) investem fundamentalmente em dívida pública, na aposta de que o governo irá honrar com seus compromissos. Se o défice público é muito grande e a dívida entra numa escalada de ascensão constante, isso deixa os investidores temerosos de um default.

Por isso, Temer (através de seu ministro da Fazenda, Henrique Meirelles) promoveu reformas que beneficiassem uma pequena produtividade interna a fim de impedir que o rombo fiscal se tornasse um problema absoluto e impedisse a entrada de investimentos estrangeiros. Neste sentido, Temer foi uma pílula de açúcar (efeito placebo) para tapar um problema que não depende de paliativos financeiros, mas de reformas estruturais na malha produtiva. Diante deste fator, as eleições de 2018 colocaram em xeque quais alternativas estavam se predispondo para mexer ou não neste problema estrutural. O candidato eleito, porém, representou uma continuidade das promessas de Temer ao mercado financeiro.


E mais ainda, o governo eleito (Jair Bolsonaro), através de seu futuro ministro da Economia (Paulo Guedes) representam um conjunto de ideias bem mais radicais do que as propostas por Temer. Economicamente falando, Guedes propõe uma forte liberalização da economia, promovendo uma radical abertura comercial e um conjunto de privatizações, visando com isso atingir dois objetivos: arrefecer o impacto da dívida, acabar com o rombo fiscal e deixar para a iniciativa privada toda a capacidade produtiva.

Mas como vimos anteriormente, para que este projeto tenha possibilidade de sucesso, o problema da malha produtiva (a qual podemos resumir em educação e infraestrutura) precisa ser debatida e atingida concretamente. Sem melhoria nos níveis de educação, faltará mão-de-obra qualificada. E sem melhoria na infraestrutura do país, faltará ambiente para a produção. Considerando que o Brasil não tem capital interno suficiente para o investimento, sobra para o capital externo. E como vimos, o capital externo não irá investir numa fábrica se isso não for lucrativo para si. Eles pretenderão continuar investindo no mercado financeiro, onde o lucro é menos arriscado do que num país cuja malha produtiva praticamente inexiste.

Isso nos leva a dois resultados prováveis. O primeiro deles é que, a grosso modo, as propostas liberalizantes de Paulo Guedes não alterarão nada no setor produtivo, mantendo o agronegócio como o carro-chefe e o setor de serviços como a grande fomentadora de bem-estar social. É possível o barateamento de alguns produtos, dado a internacionalização da economia e a entrada de produtos estrangeiros. No entanto, isso não significa no médio prazo a garantia de poupança e tampouco de investimento, que continuarão concentrados no mercado financeiro e no agronegócio.

O endividamento das famílias brasileiras ainda é uma questão primordial. Estimular o consumo com uma abertura comercial gerará uma euforia de curto prazo, promovendo uma nova rodada de consumismo na sociedade brasileira. No setor produtivo, favorecerá a importação de alguns insumos. Mas estes insumos não beneficiarão a criação de novas indústrias no país, pois não temos malha produtiva. Poderá beneficiar o surgimento de novos negócios no setor de serviços e talvez alguns equipamentos no setor de commodities. Mas em termos gerais, não modifica a estrutura da economia brasileira.




O problema do endividamento é que os bancos não estão interessados em renegociar dívidas. Estão interessados em ganhar nas taxas e no spread, mantendo sua alta lucratividade. Banco não vê gente, vê números. E é isso que os interessa. Se grande parte da população está com o nome no SPC, por exemplo, então a euforia como dito anteriormente terá um prazo de validade até que todo mundo aprofunde seu endividamento e acabe trabalhando em qualquer coisa para poder pagar dívidas.

Ai que entra outro fator perverso da proposta de governo Bolsonaro: direitos trabalhistas. É verdade que uma reforma da CLT era necessária, visando moderniza-la e torna-la mais maleável para a condição da economia brasileira. É verdade também que outras reformas, como da previdência, tributária e investimentos pesados em infraestrutura são importantes para favorecer o mercado de trabalho. Mas não investindo em educação e nem em infraestrutura, uma abertura indiscriminada de empregos sem o abrigo da CLT favorecerá o subemprego e os abusos de salários (sempre abaixo do mínimo).  

A ideia de uma “carteira de trabalho verde e amarela” não significa a geração de empregos, mas a geração de empregos sem o abrigo dos direitos trabalhistas, algo que pode ser entendido através de uma frase muito dita por Jair Bolsonaro: “O povo tem de escolher entre trabalhar sem direitos ou ter direitos e não ter trabalho”. Oras, trabalhar sem direitos, sem garantias fundamentais, permite que não apenas o subemprego se institucionalize, mas também não garante melhoria no rendimento dos brasileiros. Se eles já estão endividados, se não tem especialização e se não há infraestrutura que permita uma alocação de recursos humanos mais eficiente, então os brasileiros estão condenados a uma vida de semiescravidão, onde trabalharão para pagar dívida e para sustentar uma rede de interesses financeiros perversa.

A demografia possui um papel importante nesta análise, assim como os mapas da estrutura produtiva nacional. Basicamente, o Brasil não tem tantas terras produtivas como se imaginava e não temos um número suficiente de indústrias que favoreçam a produção de riqueza nacional. Ao mesmo tempo, temos uma sociedade que está no final do boom demográfico e caminha para um aprofundamento do envelhecimento. Isso significa que teremos menos força de trabalho nas próximas décadas do que temos agora e que, configurando-se tudo o que foi dito até aqui, o Brasil caminha para um século inteiro de subdesenvolvimento e aprofundamento das suas desigualdades sociais.


Ø  Perspetivas e estratégias: uma crítica construtiva;

Criticar sem apresentar alternativas pragmáticas ou estratégias para resolver o problema não contribui para o debate, que já anda bastante ignorado no Brasil contemporâneo. É por isso que dedico este espaço a seguir para propor soluções que podem (ou poderiam se fossem adotadas) diminuir o peso destes problemas e favorecer um desenvolvimento robusto na segunda metade do século XXI no Brasil. Como vimos, temos um problema produtivo que passa pelas instituições financeiras (e seus interesses) e pelo endividamento da sociedade brasileira.

Precisamos atacar os dois problemas frontalmente. Isso significa promover uma reforma bancária dentro de uma reforma estrutural da economia brasileira, demandando investimento público em educação, segurança, infraestrutura e saúde. A sociedade precisa estar minimamente assistida e possuir informação para a formação bruta de capital e para o investimento interno. A abertura comercial é também importante, mas precisa ser orientada para favorecer a produtividade e não apenas o consumo.

Com a reforma bancária, vem também um plano de refinanciamento da dívida da sociedade civil e dos estados e municípios. O Governo Federal pode e deve diminuir encargos, cortando especialmente no funcionalismo público. Isso significa, contudo, bater de frente com os interesses de setores complicados da sociedade, como os grupos jurídicos e militares, que representam gastos anuais consideráveis para o erário público. Uma abertura comercial no setor bancário é bem-vindo, pois acirra a concorrência e dá opções para os cidadãos brasileiros.

Ao contrário do que parece, o governo liberalizante de Bolsonaro-Guedes não é um governo liberal, pois não é descentralizador. É um governo concentrador e que favorece a estrutura monopolista dos bancos privados brasileiros e dos interesses do mercado financeiro nacional e internacional. As reformas de Estado do período Temer e as propostas de Bolsonaro vão na contramão do que precisamos fazer, pois não estimulam a produção de riqueza, mas sim o consumo e os setores concentrados da economia para que a dívida seja paga ou entre num círculo virtuoso de sustentação.

Se houvesse preocupação do governo eleito em resolver nossos problemas, haveria uma tropa de choque contra os interesses financeiros e bancários e um pacto federativo e republicano visando favorecer o cidadão brasileiro em sua busca por melhora nos níveis de poupança. Uma sociedade só enriquece se houver trabalho e poupança. Subemprego não é trabalho e aprofundamento do endividamento das famílias não é poupança. Os próximos 4 anos, a depender da oposição da sociedade civil e do estamento político, podem significar uma perda profunda da capacidade geracional da sociedade brasileira entrar num ciclo de prosperidade na segunda metade do século XXI.

A euforia dos mercados e do consumo com as propostas de Guedes são de curto prazo, pois a realidade é a de uma economia desindustrializada, sem malha produtiva, altamente dependente de commodities e do setor de serviços, com uma sociedade endividada e uma alta concentração bancária. Não é uma fórmula que pode dar certo. Não deu muito certo nos governos petistas e não tem como dar certo num governo que promete ser a antítese dos governos petistas. O fluxo de concentração de renda continuará, a dinâmica de enfraquecimento do mercado de trabalho nacional também continuará e o Brasil vai se distanciar mais e mais das nações desenvolvidas diante de sua pouca complexidade económica e de sua tímida inserção na divisão internacional do trabalho.

Para que este texto não pareça inteiramente pessimista, gostaria de indicar que se houvesse um investimento coordenado do Estado no favorecimento de educação especializada em Tecnologias da Informação associado com a entrada de investimentos externos, haveria a possibilidade de, neste contexto, o Brasil iniciar um processo semelhante ao da Índia no médio-longo prazo. Seria uma saída para o cenário dantesco em que nos encontramos diante da revolução tecnológica. Mas seus resultados demandariam tempo e não contribuiriam no curto prazo com os problemas estruturais da economia e sociedade brasileira.

A verdade é que o Brasil é um país onde o vácuo de informação e de coordenação política na convergência de interesses nacionais genuínos, da sociedade como um todo e enquanto comunidade, é tamanha que poucos setores conseguem criar uma cortina de fumaça e pautar o debate público. Este texto é uma das poucas críticas a este cenário e mesmo assim é capaz de encontrar resistência de indivíduos de classe média que acreditam, verdadeiramente, que o modelo de governo Bolsonaro os irá enriquecer. Tais pessoas acreditam que consumo e níveis de bem-estar material representam riqueza, enquanto todos os investidores realmente milionários sabem que riqueza é capacidade produtiva e de investimento, não o consumo.

Que possamos, pelo menos, iniciar este debate visando a segunda metade do século XXI. No atual cenário, este autor acredita que já perdemos as próximas décadas. Talvez, se começarmos agora, poderemos salvar as décadas pós 2050 e favorecer um final de século próspero e vantajoso para toda a sociedade brasileira. Se conseguirmos, o século XXII poderá ser o grande século brasileiro. Mas para isso, temos de começar agora a debater as estruturas de país que queremos para nós e para nossos filhos, netos e bisnetos. Precisamos pensar enquanto comunidade, não como indivíduos e seus interesses passageiros. Precisamos de uma visão de longo-prazo.

Obrigado pela leitura,

Sasha Lamounier
Jornalista, Brasileiro vivendo em Portugal
Um Liberal Clássico