03/06/2016

A Revolução não será compartilhada



A Revolução não será compartilhada

Por

Sasha Lamounier


Observando as notícias acerca do Brasil e comparando com as notícias do mundo, reparo que há um movimento global acontecendo. Algo que não é restrito às fronteiras verdes e amarelas, mas que é, sem dúvida alguma, mundial. Longe das teorias da conspiração, criadas tanto por comunistas quanto por conservadores, há muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, e por diferentes motivos. E tudo isso vem criando uma grande confusão para aquele que se vê no olho do furacão.

Neste artigo, vou tentar apresentar um pouco destas observações ao mesmo tempo em que me posicionarei, enquanto pensador, diante delas.


1.      O que está acontecendo?

Seja na América Latina, Europa, Oriente Médio, Ásia ou qualquer canto do mundo, uma coisa é unanimidade: 44% dos seres humanos deste planeta estão conectados. Segundo dados do State of Connectivity 2015, são 3,2 bilhões de indivíduos ligados a Internet, num mundo com mais ou menos 7,3 bilhões de seres humanos. [1]

Isso indica que quase metade da humanidade está sujeita a receber todo tipo de conteúdo compartilhado nas redes. Este texto (publicado num blog) é destinado, justamente, a esta parcela da população que tem acesso a Internet.

Quase todo jovem tem uma conta no Facebook. E grande parte daqueles que tem acesso a Internet, também. Tecnicamente falando, o Facebook (assim como a maior parte dos sites na Internet), utiliza como modelo estrutural de texto, o hipertexto. O que é o hipertexto? Como a palavra já diz, é um “super texto” que não tem um fim definido, como uma página de livros ou jornais impressos. A rolagem do cursor faz com que o texto lido pelo internauta seja uma continuidade constante (o que impede, por exemplo, que o leitor foque sua atenção em uma só coisa, uma vez que há mais conteúdo “por conhecer” na rolagem). Além disso, o hipertexto também é intertexto, uma vez que há links que fazem a ligação de um texto para outros quaisquer. O impacto social deste modelo ainda é objeto de estudo por especialistas da semiótica. Mas de todo modo, serve como um importante dado para o que acontece na sociedade moderna. [2]

O leitor virtual é tido, pelos designes de conteúdo web, como preguiçoso. Ele precisa ter acesso a informação o mais rápido e intuitivamente possível, pois a natureza da Internet é a mutabilidade constante. Portanto, se o texto não é aprazível no curtíssimo prazo, não interessa. Num planeta onde 44% da população vive diariamente alimentada por hipertextos, naturalmente teremos uma mentalidade do descarte e da superficialidade. É aqui que a informação se diferencia do conhecimento. O indivíduo moderno tem acesso a muita informação. Mas o problema é que informar demais, também é desinformar. Isto porque o grande fluxo informacional pode, ao internauta desatento, formatar conceitos contraditórios sobre um mesmo tema. Por exemplo: Se eu disser que uma salada salgada tem bananas e ameixas, e logo depois você ler que bananas e ameixas fazem parte de saladas doces, há aqui uma contrariedade sem sentido claro, uma vez que não há explicações detalhadas do que seria uma salada salgada e uma salada doce. O mesmo ocorre com basicamente TUDO o que o internauta lê na Internet. O conhecimento está disperso em muitas informações. E nem todo mundo sabe separar o que é pertinente daquilo que é descartável.





2.      O que isso tem a ver com política e sociedade?

Se a sociedade virtual é superficial em termos de conhecimento e mais dispersa em termos de interesses, facilmente o que surge e acontece num lugar do mundo terá algum impacto em outro lugar do mundo. Não há mais uma lógica “de fronteira” para o nativo virtual. O mundo tornou-se uma coisa só. E temos vários exemplos de como isso funciona na prática. Por exemplo, a Primavera Árabe de 2011.  As “revoluções” na Líbia e Egito foram impulsionadas pelas redes sociais e as informações e desejos lá compartilhadas. Do mesmo modo que a Síria entrou em guerra civil através de protestos organizados pelas redes sociais. Dentro deste contexto, surge também o Estado Islâmico. E de que modo o ISIS recruta seus combatentes no mundo todo? Novamente, usando as redes sociais e a Internet. [3]

Se observarmos o conteúdo dos discursos, tanto na Primavera Árabe quanto no Estado Islâmico, veremos um mesmo sintoma: radicalismo e superficialidade. Já falamos da superficialidade. No caso do radicalismo, ele surge como fruto do vazio de conhecimento (fruto da superficialidade). A informação alarmista e descartável torna-se o problema central da vida do leitor, que de algum modo se identifica com o alarme. Novamente, o internauta é preguiçoso. Ele quer logo avançar naquilo que decidiu ler ou fazer. Não quer perder tempo fazendo pesquisa ou debatendo. Se ele resolveu clicar num link, é porque ele quer entrar neste link. Do mesmo modo, se um radical em potencial resolveu aderir ao discurso radical, ele fará isso até o fim. Neste entremeio, surge a ignorância.

O que os protestantes da Primavera Árabe queriam? Democracia. Era o “download” que eles optaram por fazer. Mas que democracia? Que sistema democrático? Com que tipo de reformas políticas? Qual era a agenda?

Não havia. Apenas baixaram o valor “democracia”. A Primavera Árabe foi uma revolta virtual que se projetou nas ruas. A espectativa de resultados no curtíssimo prazo, como num hipertexto, fez com que a discussão de algo necessariamente de longo prazo (como o futuro de uma nação ou uma sociedade) ficasse em segundo plano. Para que comentar, se posso curtir? Comentar demanda tempo. E eu (internauta) não tenho este tempo… Eis a superficialidade.

Quais são as demandas do Estado Islâmico? Qual é a base de sustentação da organização? Criado por ex-militares iraquianos e ex-membros da Al Qaeda, o ISIS surgiu com um discurso mais radical do que qualquer outro grupo paramilitar islâmico. O discurso do Daesh (como também é conhecido o ISIS) é o “retorno” a um tempo de glória no mundo árabe, onde Maomé ainda era vivo e ditava as leis diretamente, de acordo com os costumes da época (cerca de 1600 anos atrás). Novamente, percebe-se aqui uma preguiça intelectual. Ao invés de criar algo novo, ou um caminho diferente, resolveram fazer “download” literal de uma interpretação superficial do Islamismo para, assim, responder a suas “necessidades”. Não há vontade de discutir os problemas do Oriente Médio no ISIS, não há sequer uma pauta política definida (como o IRA na Irlanda do Norte), mas há uma necessidade de aproveitar um rebuliço social (Síria) para se criar uma metonímia do “islamismo perfeito e ideal”. Daí o nome “Estado Islâmico”, pois pretende-se, com isso, reviver o antigo e sonhado “Estado islâmico” de todos os muçulmanos do planeta. Eis o radicalismo. [4]

Seria este radicalismo e superficialidade um problema apenas destas nações desestruturadas do Oriente Médio? Será que somente eles utilizam a Internet como forma de radicalização do discurso?

O Oriente Médio tem cerca de 270 milhões de pessoas. E os muçulmanos no mundo são mais ou menos 1,5 bilhão. Se estamos falando de uma população de 3,2 bilhões conectados as redes, obviamente, não são todos árabes ou muçulmanos. Na verdade, em sua maioria são ocidentais. Membros da famosa “sociedade judaico-cristã”, de tradição greco-romana e europeizada.

Aquilo que vemos acontecer no Oriente Médio, que já é uma região desestruturada politicamente há muito tempo, é apenas um alerta do que ainda podemos ver ao redor do mundo, se não tomarmos muito cuidado.


Nos EUA, onde a grande maioria da população é conectada, temos visto surgir discursos superficiais e radicais sobre tudo. Há 20 anos atrás, alguém acreditaria que Donald Trump seria o candidato do Partido Republicano, prometendo construir um muro entre EUA e México e promovendo o mais alto grau de protecionismo econômico da história americana? Nem mesmo os Bush apoiam Trump. No entanto, ele superou todos os demais pré-candidatos do GOP e será o representante republicano contra o(a) candidato(a) democrata, com um discurso semelhante ao do ISIS: “Make America Great Again” (Fazer a América grande de novo). Ou seja, “retornar” a um período de suposta glória que os EUA teria vivido no passado. Novamente, o “download” ideológico. [5]

Obama foi o primeiro candidato a presidência dos EUA a entender esta lógica da sociedade virtual e surgiu apostando firmemente na campanha na web. Deu tão certo, que sua campanha de 2008 com o “Yes We Can” se tornou exemplo para diversas outras campanhas presidenciais. No Brasil, em 2010, Dilma Rousseff foi eleita seguindo o mesmo padrão da candidatura Obama.

Na Europa, o debate a cerca do extremismo islâmico e das soluções para o problema seguem a mesma lógica. Ao invés de debater a questão seriamente, entendendo o que acontece no Oriente Médio e qual a relação da União Europeia, EUA e Rússia com isso, opta-se pelo discurso mais “fácil de baixar”. Ou seja, o radical. Recentemente, na Áustria, um candidato de extrema-direita (Norbert Hofer) quase foi eleito presidente do país. [6] A única coisa que impediu sua eleição foi o voto dos imigrantes austríacos, que correram contra o tempo para votar no outro candidato (Alexander van der Bellen), impedindo que Hofer fosse o vitorioso. Na França, o discurso radical dos Le Pen tem crescido, especialmente depois dos atentados de 2015. Embora grande parte da população europeia ainda busque se aprofundar neste debate, a tendência do “download ideológico” criar surpresas é cada vez mais intensa.


3.      E no Brasil?

Finalmente, no Brasil, temos desde 2013 um movimento semelhante. Grande parte da população começou a ter acesso a Internet nos últimos 15 anos, fruto do crescimento econômico e das políticas de inclusão social, em especial do governo petista. Por mais que haja alguma polêmica quanto a isso, os dados mostram que o combate a pobreza no governo Lula e o surgimento da “Nova Classe C” favoreceu muito o acesso a Internet por parte de brasileiros nas mais diversas regiões. Em 2013, no ano da Copa das Confederações (o “ensaio geral” para a Copa do Mundo), o país parou. Eram manifestações gigantescas, com pautas de todo tipo. Gente que saía as ruas pedindo tudo o que sempre ouviram nas escolas, na TV e no senso comum: mais saúde, mais educação, menos corrupção, menos violência etc. Se olharmos criticamente, veremos que já em 2013 as pautas eram um grande “download” político.

Nas eleições de 2014 (poucos meses depois do Brasil perder vergonhosamente a Copa que sediava), tivemos a mais polarizada eleição desde Lula e Collor em 1989. Como se não bastasse, um candidato a presidência morre num acidente aéreo (Eduardo Campos), mexendo ainda mais no jogo político eleitoral. Nestas eleições, o Congresso mais conservador desde os anos 1980 seria eleito e ao mesmo tempo Dilma Rousseff seria reeleita presidente da República. Com esta configuração e com 2013 bem fresco na memória coletiva do brasileiro, 2015 certamente não seria um ano normal na política. O que acontece a seguir é semelhante as revoluções árabes de 2011. Aqueles que votaram no outro candidato (Aécio Neves) optaram por ou não reconhecer a Presidente eleita, ou simplesmente defender seu afastamento por supostas irregularidades nas contas de 2014. Claro que, o grande sustentador deste rebuliço era a economia, que começava em 2013 a dar sinais de fragilidade. Mas havia um combustível a mais…

Pois bem, a dúvida que surge é: o que acontecia nas redes que justificasse este rebuliço todo? Simples, a velha guerra de informação. Não havia nenhum debate sobre o Brasil e seu futuro. E quanto a isso, eu (Sasha) sou fonte primária, pois estive em todo tipo de debate virtual desde final de 2012. Por um lado, haviam os argumentos governistas, já conhecidos da sociedade brasileira desde que Lula foi eleito em 2002. De outro lado, haviam as “oposições” ideológicas, alarmistas, que defendiam um agenda diferente da governista, sempre acusando o governo do crime maior para a parcela conservadora da sociedade brasileira: o PT é “comunista”. O terror começou a tomar conta de todo debate. “Este governo tem de cair logo, querem transformar o Brasil numa União Soviética!” dizia o jovem nascido depois da queda do Muro de Berlin e que tinha acesso a Internet depois de sua família ascender a classe média no governo Lula.

Como este discurso alarmista surgiu? De um lado havia o velho astrólogo e jornalista Olavo de Carvalho, famoso por seus artigos conservadores nos jornais O Globo e Jornal do Brasil. Olavo vive nos EUA e tem contato direto com os mesmos republicanos que hoje votam em Donald Trump. Seu discurso? “Pelo retorno da sociedade judaico-cristã, contra o projeto globalista islâmico e comunista”. Sim, é isso mesmo que você pensou: é outro download ideológico.

Além dele, há os Institutos “Liberais”, como o Mises Brasil, o Instituto Liberal, o Instituto Millennium e o Estudantes pela Liberdade (do qual o Movimento Brasil Livre é fruto), que muito longe de serem fóruns de debates amplos e abertos sobre política são, antes de tudo, centros de doutrinação neoliberal e conservadora. Em resumo, mais um outro download ideológico.

Unindo-se a estas duas forças virtuais que bradavam contra o governo e usavam a população desejosa de “tudo” em 2013, estavam outros jornalistas (Reinaldo Azevedo e Diogo Mainardi), o economista Rodrigo Constantino e uma parte da mídia que denunciava, com ampla divulgação, grampos e acusações contra o governo como se fossem “julgamentos definidos”. Todo mundo tornou-se culpado até que se prove o contrário. O que notamos com isso?

Vamos a lista, fato a fato:

1.      Em 2013 tínhamos uma população de classe média B e C, com acesso a Internet, desejosas de melhores serviços públicos, como transporte, educação, saúde, saneamento básico, contra a corrupção, pelo respeito aos impostos e todas as demais pautas “senso comum” da sociedade brasileira. Os protestos eram organizados pelo Facebook.

2.      Olavo de Carvalho começa a tornar-se viral na Internet em meados de 2009, através de seu curso de filosofia online (ele vive nos EUA, mas a divulgação de seus cursos são no Brasil). Antes, Olavo era um conhecido ensaísta e autor, mas sem notoriedade de massas como a Internet lhe proporcionou.

3.  Ao mesmo tempo, já desde 2005, pelo menos, haviam institutos alinhados com o neoliberalismo do Consenso de Washington e com o conservadorismo social discutindo soluções para vencer o discurso petista. Entre eles, os citados Instituto Millenium (criado em 2005), Instituto Mises Brasil (surgido em meados de 2008 e 2009) e o Estudantes pela Liberdade (surgido no Brasil em 2012). Todos com plataformas virtuais (sites, blogs e canais no YouTube) para divulgação.

4.     Em 2014 surge a Operação Lava Jato, sediada em Curitiba pelo Juiz Sérgio Moro, com foco na investigação de um esquema sistêmico de corrupção envolvendo a maior empresa brasileira: Petrobrás. Cada novo escândalo noticiado pela grande mídia torna-se assunto do dia, da semana e do mês nas redes sociais.

Tudo isso, ao mesmo tempo em que no mundo a crise financeira de 2007-08 criava uma série de colapsos econômicos e exigia medidas estatais e austeras para salvar as principais economias do mundo. E ao mesmo tempo em que as denúncias de espionagem da NSA viam a público, através de Edward Snowden. Uma delas, inclusive, tratava da espionagem do governo americano nos emails e celulares da presidente Dilma Rousseff e na Petrobrás.




A partir de 2013, por diferentes motivos, a sociedade brasileira começou a sentir o peso da inflação e os custos que, antes, favoreciam a classe média. Portanto, o que vimos em 2013 foi uma população revoltada com a economia e que queria soluções rápidas para seus problemas. O download do arquivo “direito de consumir” havia sido baixado pelas classes B e C. Aproveitando isso, diversas forças utilizaram o ranger de dentes popular por reformas, para criar uma pantomima ultraliberal e conservadora, jogando a população contra o governo de forma radical e sem debate. Se o pacote “direito de consumir” estava falhando, criaram o pacote “direito de protestar”.


4.      A que conclusão se chega?

De fato, aquele que ignora a força da Internet na sociedade moderna terá grandes dificuldades para entender o que está acontecendo a nossa volta. Tudo pode parecer lógico num primeiro momento, pois criou-se um pacote para ser baixado com uma lógica pré-definida. Mas onde está o debate? Onde está o dialogo social, tão necessário para mudar no longo prazo uma nação? O brasileiro sempre soube, em seu íntimo, que os governantes tinham seus “esquemas”. E debater isso é parte da reforma que a sociedade brasileira precisa. Porém, o que tem ocorrido no país é uma grande hipocrisia seletiva e coletiva, onde a corrupção de um é “menos ruim” do que a corrupção de outro. Onde se compete para ver quem é mais “moralmente elevado”. Onde se conspira abertamente pelo poder e todos fecham os olhos. Onde a informação é manipulada, mas finge-se que é legítima. Onde o meu time precisa vencer o seu time.

Na falta de conhecimento e profundidade, surge o radicalismo. E é exatamente neste ponto que a sociedade brasileira se encontra. A exemplo dos europeus assustados com o mito do projeto de poder islâmico global, ou ainda dos americanos com receio do avanço chinês, ou também como os próprios islâmicos radicais, com medo de perder sua cultura para o avanço globalizante da cultura ocidental, os tempos são de hipertextos.

Se nada for feito, no Brasil e no mundo, para superar este crônico problema, a tendência será o emburrecimento cada vez mais elevado de uma população que não para de crescer. Hoje somos 7 bilhões de seres humanos. Até 2050 seremos mais de 10 bilhões de seres humanos. Mas em que condições de vida? Em que condições de intelecto? Lutando que tipo de guerras? E mais importante: em nome do quê?

Em um mundo tão disperso, tão superficial e radical, apenas uma coisa é certa: esta revolução não será compartilhada.

Obrigado pela leitura,


Sasha Lamounier
Porto, Portugal 

03 de Junho de 2016 



Referências:

[1] State of Connectivity – 2015


[2] O hipertexto como mídia semiótica – Maria Angela Coelho Mirault

http://www.webartigos.com/artigos/o-hipertexto-como-midia-semiotica/15391/


[3] O Papel das Redes Sociais na Primavera Árabe – Acessado em 03 de Junho de 2016.




[5] Propostas Donald Trump – 2016



[6] Vitória de Der Bellen foi graças ao voto por correio – Acessado em 03 de Junho de 2016.







27/03/2016

Jean Valjean Digital


Jean Valjean Digital

Por

Sasha Lamounier



Os dois equívocos

Há dois equívocos que costumam confundir o debate e o entendimento a cerca do liberalismo clássico. Primeiro, confunde-se o liberalismo clássico com o conservadorismo. O que por si é uma incongruência. Defender a liberdade é defender o progresso da manifestação do homem na existência. Portanto, é defender a liberdade de consciência do ser humano. Já escrevi, inclusive, dois artigos mostrando isso (Liberalismo: de centro e progressista! e A Vocação progressista do liberalismo). Em suma, o liberal pode ser conservador da porta de casa para dentro. Porque da porta de casa para fora, entendemos (os liberais) que o mundo é um verdadeiro mosaico aberto, cheio de cores, cheiros e expressões diferentes e que, por isso, todos tem o DIREITO de ser diferentes. Ser liberal é mais do que tolerar o diferente, é defendê-lo!

Isso nos leva ao segundo equívoco. Trata-se dos libertários! Populares no Brasil graças a certos institutos “liberais”, os libertários defendem primeiro, a diminuição total do Estado e segundo, a maximização do “livre-mercado”, fundamentando isso em cima de um “individualismo máximo”. O problema é que ao colocar a ideia de liberdade em cima de um individualismo exacerbado, nega-se o princípio maior do liberalismo clássico: ser livre na medida em que o outro também é livre (princípio da isonomia). Deste entendimento surgiu o Estado de Direito moderno, que o libertário radical (anarco-capitalista), renega veementemente.

Os libertários “moderados” colocam o liberalismo clássico como uma “etapa” rumo ao “libertarianismo”. Ou seja, para os libertários moderados, qualquer nível de “estatismo” é nocivo para a vida humana e deve ser combatida. Mesmo que para isso tenha de se “tolerar” um estado liberal. Essa ideia difusa de “progressão” da liberdade não poderia ser mais ofensiva e falsa! O liberalismo clássico não é uma “etapa” no projeto de nenhuma ideologia. O liberalismo clássico é ELE MESMO uma proposta de mundo e de organização social. Portanto, não somos “etapa” em nenhum processo de liberdade. Nós, os liberais de tradição, somos um caminho para a própria liberdade.

Temos, assim, dois problemas de visão que infernizam o debate intelectual no Brasil (e em certa medida, no mundo). No caso dos conservadores, tenta-se retornar (ainda que inconscientemente) a uma época onde a família era à base de uma sociedade (o ideal da família tradicional). Onde o Estado seria uma derivação das organizações familiares e não uma entidade secular. Já no caso dos libertários, há uma negação do Estado em favor do individualismo máximo. Observamos em ambos uma mesma coisa: trata-se da negação do Estado secular (todos os homens são iguais perante a lei, não importa suas escolhas individuais). Através desta negação, conservadores e libertários promovem uma nova versão do “antigo regime absoluto”. Seja em nome da família e dos bons costumes ou em nome do indivíduo e seu individualismo autista.

Para o liberal clássico, o Estado é um mediador de interesses individuais. E por isso é secular! Defendemos a secularização, pois a religião não deve pautar a vida de sociedades livres, mas sim, são as escolhas de consciência de cada indivíduo que devem pautar o Estado. Defendemos o Estado como uma apólice de seguros para as liberdades individuais, preservando a discordância e o diferente, algo natural na vida humana. O libertário por sua vez, nega o Estado (mesmo o liberal) em favor do indivíduo no mercado (nega, portanto o cidadão em favor do consumidor). Assim, o libertário acaba negando o próprio capitalismo clássico, nascido do liberalismo tradicional. Quando o liberalismo surgiu (“Capitalismo:uma invenção liberal clássica”), surgiu dentro de um contexto histórico que deu origem tanto ao Estado de Direito (laico, império da lei) quanto ao mercado que hoje conhecemos. Portanto, o mercado que o liberal defende é fruto de uma concepção de Estado, não de sua ausência (o que nos coloca contra libertários e contra conservadores ao mesmo tempo).

Conservadores defendem a ausência do Estado, para deste modo preservarem a religiosidade e a influência da religião na sociedade, o que limita a liberdade de consciência individual. Já os libertários querem um Estado ausente para que suas escolhas mercadológicas sejam preservadas, ainda que isso limite também sua liberdade de consciência. Em ambos os casos, trata-se de uma luta contra a liberdade e autonomia do indivíduo. Trata-se de um engodo. Nem conservadores e nem libertários são amigos da liberdade.



Com a palavra, os clássicos!

No iluminismo, houve uma ruptura entre a visão teocêntrica de mundo (Deus como centro do universo) e passou-se para uma visão antropocêntrica de mundo (o homem como centro do universo). Mas esta visão antropocêntrica não era e nunca foi individualista! O “homem”, para o antropocentrismo, são TODOS os homens. É a humanidade em si! Daí surgiu diferentes formas de organizar a vida em sociedade, visando respeitar o indivíduo (o ser humano). Trata-se dos três contratualistas clássicos: Thomas Hobbes, John Locke e Jean Jacques Rousseau. E também deste princípio surgiram os direitos humanos, hoje tão importantes na defesa da vida humana.

No contexto do iluminismo, saiu-se do antigo regime (monarquia absoluta) para o novo regime (democracia, republicano ou monárquico). Mudou-se também o sistema econômico, antes mercantilista para o liberalismo econômico (livre-mercado). E finalmente, mudou-se a idealização da fé (religião) para a razão (ciência). Todas estas mudanças geraram frutos e reflexões a cerca do indivíduo no meio em que vive. E estas reflexões seriam permanentes ao longo dos séculos XVII, XVIII, XIX e XX. Fruto do iluminismo nasceu o liberalismo, o socialismo e o anarquismo. Chegamos hoje ao século XXI, porém, com uma curiosa situação. Vivemos na negação dos valores iluministas!

Se a razão suplantou a fé após o iluminismo, hoje vemos movimentos contrários constantes em busca da reaproximação do homem a Deus (ou da ideia que fazem de um “Deus”). São os movimentos fundamentalistas (muçulmanos ou evangélicos) e os movimentos neoconservadores. Ao mesmo tempo, os libertários assumem uma postura dogmática e baseada em crendice, quando assumem o indivíduo como uma entidade quase mítica, ignorando a sociedade e as relações diversas que diferentes indivíduos geram no convívio social e assumindo o “mercado” como solucionador de todos os problemas. A ditadura ganhou novos ares e novos nomes. Se antes saímos do antigo regime absoluto monárquico, hoje entramos no absolutismo individualista ou religioso / ideológico. Nega-se a razão e a empiria em favor de uma “ideia abstrata perfeita”, tanto do mundo como de si mesmo.

O homem abandonou a investigação. Abandonou a procura por respostas. O racionalismo suplantou o empirismo. Hoje, através de uma visão mercantilizada das ideias, procuram-se sempre respostas prontas (fordismo ideológico). A guerra ideológica é tão e unicamente uma guerra entre crenças, não entre reflexões. O liberalismo econômico, antes servido para emancipar as nações, hoje é tão e unicamente instrumento de nações desenvolvidas contra nações em desenvolvimento. Todas as nações centrais passaram pelo mercantilismo e por processos protecionistas de suas indústrias nascentes (EUA, Inglaterra, França e mesmo Alemanha). Mas as nações emergentes têm seu mercantilismo e seu protecionismo negado em nome de um “liberalismo econômico” caduco, que nem mesmo as nações centrais seguem! O próprio EUA, maior defensor da pretensa “liberdade econômica”, é o principal país que descumpre as medidas propostas pelo Consenso de Washington.

Sobre a autonomia econômica das nações, Smith já foi claro: “A riqueza de uma nação se mede pela riqueza de seu povo, e não pela riqueza dos príncipes.”. Podendo ser os príncipes tanto os governantes, como as elites financeiras e políticas de um país.

Contra o individualismo máximo, Adam Smith, o pai do liberalismo econômico, diria no seguinte trecho, tirado de “Teoria dos Sentimentos Morais” (TSM, 6) o seguinte: “Essa é a fonte de nossa solidariedade para a desgraça alheia, trocando de lugar, na imaginação com o sofredor, que podemos ou conceber que ele sente ou ser afetado por isso.”

E ainda, ele complementa (TSM, 22): “(...) esforça-se tanto quanto possível para colocar-se na situação do outro, (...) empenhar-se por interpretar da maneira mais perfeita possível a mudança imaginária de situação sobre a qual se baseia sua simpatia.”.

Sobre as liberdades individuais e o direito da emancipação das nações, John Locke nos lembra:

Segundo Tratado do Governo Civil, sobre a liberdade natural como preceito para a conjugação das sociedades civis: “O homem nasceu, como já foi provado, com um direito à liberdade perfeita e em pleno gozo de todos os direitos e privilégios da lei da natureza, assim como qualquer outro homem ou grupo de homens na terra”. (ST, 87).

E complementa: “Por isso, todas as vezes que um número qualquer de homens se unir em uma sociedade, ainda que cada um renuncie ao seu poder executivo da lei da natureza e o confie ao público, lá, e somente lá, existe uma sociedade política ou civil.”. (ST, 89).

Isso demonstra que, ao contrário do que se vende pelos institutos liberais e think tanks libertários, o liberalismo é antes de tudo político e depois econômico. A liberdade civil, que garante o direito do homem livre ser livre no seio social, de ter sua liberdade de consciência, é também o que garantirá que a sociedade se organize voluntariamente para adotar os programas econômicos que melhor lhes aprouver. Toda tentativa de tentar impor o liberalismo econômico numa sociedade deve ser vista como uma ofensa à soberania nacional e como um ataque contra a liberdade de consciência. O liberalismo econômico não é pré-condição para o liberalismo civil, mas o liberalismo civil é pré-condição para o econômico.

Portanto, o que o liberal clássico defende que o diferencia tanto de conservadores quanto de libertários?

I.              A necessidade do Estado e sua importância para a preservação e maximização das liberdades individuais em sociedade;

II.              A defesa absoluta das liberdades civis e do direito a vida, liberdade e propriedade, como preceitos básicos para a manifestação do homem na existência;

III.           A secularização do Estado e o laicismo, colocando na Lei e no Direito a prerrogativa de mediar às tensões e interesses individuais, sempre se respeitando os direitos individuais citados nos pontos I e II;

IV.           O direito absoluto de liberdade de consciência, onde cada cidadão, protegido pela lei, pode expressar-se livremente sobre o que pensa, podendo ele investigar a verdade por conta própria, sem qualquer impedimento ou constrangimento por parte de quem quer que seja.


Conclusão

Em suma, a autonomia individual é o objetivo maior do liberalismo clássico. Duvide de tudo o que lhe vendem como ideias prontas, pois foi contra isso que os liberais clássicos lutaram no passado. Contra as “cartilhas” dogmáticas da Igreja, contra o poder absoluto do Rei, contra a tentativa de limitar o homem e sua busca pela verdade. O que diriam os antigos enciclopedistas dos atuais movimentos “doutrinários”? O que diria Voltaire e Montesquieu do Estado servidor dos interesses comerciais e não dos cidadãos? Antes de o indivíduo ser um consumidor, ele deve ser um cidadão. Pois somente sendo livre socialmente é que se pode ser livre economicamente.

As bandeiras progressistas do passado estão ameaçadas por novimentos absolutistas modernos, travestidos de defensores da liberdade. Fazendo uma comparação com a tradição cristã, se o Anticristo vem em pele de cordeiro, então é bem verdade que ele já está entre nós.

Seja como Jean Valjean em “Os Miseráveis”. Desafie o poder. Todo tipo de poder. Seja ele financeiro, estatal ou ideológico. Desafie usando sua inteligência, usando a investigação contra a crendice. Usando a empiria contra o dogma. Usando a liberdade contra a opressão. Somente assim você será realmente livre e poderá encontrar um caminho para sua expressão no mundo.






Obrigado pela leitura,

Sasha Lamounier
Um Liberal Clássico no mundo moderno

Porto - Portugal
27 de Março de 2016
(Domingo de Páscoa)



17/03/2016

Fear not, my friends



Fear not, my friends

Por

Sasha Lamounier




Introdução

Por toda a minha vida, optei pela minha liberdade. Isso significa que nunca fui do tipo “vai com as outras”. Sempre temi parecer igual a todo mundo. Confesso isso, sem remorsos. Por isso, desde cedo optei por ser intelectualmente autônomo. Eu penso por mim mesmo e os erros ou acertos advindos de minha reflexão são, apenas, meus. Sou tão e unicamente responsável por tudo o que penso e digo. Pago um preço por isso. Às vezes concordam com o que digo, mas às vezes discordam. E é bom que seja assim. Isso significa que, de fato, sou independente. Se eu quisesse apenas concordância, era só não opinar sobre nada. Quem é que vai discordar do nada?

Acontece que uma coisa é um indivíduo concordar ou discordar de mim. Com ele posso dialogar e tanto ele quanto eu podemos mudar de opinião. Outra coisa é a opinião pública. No livro de Monique Augras, intitulado “Opinião Pública: Teoria e Pesquisa”, ela deixa bem claro que opinião é diferente de atitude. A opinião é um conjunto de valores e ideologias enraizados no indivíduo (algo relacionado a seu histórico de experiências na vida). Já a atitude é aquilo que impele o indivíduo a agir, que o motiva (como uma circunstância, por exemplo). Opinião pública, nesta relação, é o conjunto de valores sociais, históricos e culturais enraizados no conjunto de indivíduos e atuante durante um período de tempo e de incentivos.

Infelizmente, só entendi isso agora. Até então, pensava que automaticamente todos percebiam aquilo que digo como a minha opinião, apenas. Mas depois de um tempo, notei que esperam de mim uma espécie de "voz pública". Se eu dizia algo que a “opinião pública” esperava ouvir, aplaudiam. E se eu traísse essa opinião pública, seria condenado a ser um herege. É claro que as circunstâncias no Brasil (meu país e o grupo majoritário de gentes para quem eu escrevo), maximizou essa noção de “voz pública”. Dentro de um devido contexto, ou eu era bom ou era mau. Ou era sensato, ou insensato.

É evidente que não estou dizendo que todos me “pegaram para Cristo”. Há exceções de pessoas maduras e intelectualmente independentes que perceberam em minhas posições apenas as opiniões de um indivíduo, não de alguém que “escolhia time”. Eu nunca tive time. Para ser sincero, sou do tipo que diz que meu time de futebol é a seleção brasileira (já que não acompanho futebol). Nunca escolhi lados. Na escola e faculdade, quando havia debates na turma, a sorte sempre me colocava do lado menos favorecido do tema. Ou seja, polêmico. Pena de morte? Eu era escolhido para ficar no grupo que iria defender o tema. Dilema da caverna? Eu era escolhido para o grupo que defenderia o direito natural. Quando comecei a entrar nos debates facebookianos, cheguei disposto a questionar toda pré-verdade que encontrasse. E assim o fiz. Passou um tempo, criei um grupo chamado “Liberalismo Clássico”, cujo ideário conheço e sempre defendi. De repente me tornei parte de um “conjunto de forças” da opinião pública brasileira facebookiana.

Um "conjunto de forças" que se levantava contra outro "conjunto de forças". Neste momento percebi que não estava mais fazendo parte de um esforço coletivo por um projeto de país livre, mas sim, de um contexto de guerra contra um inimigo declarado. Como diria Richard IV, em Shakespeare: “Opinião, que me ajudou a alcançar a coroa”. Mas, quem disse que quero uma coroa?

Eu não sou a voz da opinião pública de nenhum lado. Eu não estou em guerra com ninguém (a não ser comigo mesmo e minhas contradições). Eu sou a voz do contraditório. Eu sou o chato que questiona. Se tiver uma massa de gente indo para o mesmo lado, eu sou aquele bicho estranho que implica para mostrar algo diferente. No presente caso da confusa história brasileira, onde tudo está desmoronando, feito castelo de cartas, e onde todos (sejam petistas ou antipetistas) estão se encaminhando para a radicalização e para a “revolução”, eu surjo naturalmente como o chato que implica com os dois e chama pelo diálogo. Se há muita revolta, eu me torno conservador. E se há muito conservadorismo, me torno reformista. Sou agente do diálogo social, não do engessamento.






Petista ou antipetista?

O projeto do Partido dos Trabalhadores é – e sempre foi – o poder. E para manter o poder, qualquer um que leu Maquiavel sabe que “os fins justificam os meios”. Mas qualquer partido ou facção que surja no cenário político tem este objetivo. Política é poder. E este poder pode ser social, cultural, econômico ou estatal. Ou realmente o leitor (a) acha que o objetivo dos libertários (Mises Brasil, Instituto Liberal, Instituto Millenium) é mansinho, sem interesses alheios promíscuos? Ou o objetivo do Olavo de Carvalho é falar tudo o que fala, sem ganhar nenhum poder de influência? Será que a Globo é inocente, mesmo conhecendo todo o seu histórico de apoio a regimes militares? Será que o Juiz Sergio Moro agiu por “amor a pátria”, ou não havia algum interesse maior que ele por trás? “Greed”, ganância. A natureza humana, ainda que considerando raras exceções, é esta.  E é ela que uso como parâmetro para analisar a realidade.

Já diria Milton Friedman. 




Não me surpreende em NADA os escândalos vindos do PT em todos estes anos. Lula sempre foi aquele malandro brasileiro que quer se dar bem. E quando digo que outros também são, é apenas para ratificar que prender o Lula não fará o sistema ficar melhor em NADA. Minha posição quanto a isso é simples: ceticismo! Não me surpreenderia escândalos vindos de outras partes e partidos. Que ele precisa ser punido pelo rigor da lei (caso tenha cometido algum crime), é uma OBVIEDADE. Dilma, Lula, FHC, Aécio, Mercadante, Jaques Wagner etc etc etc, todos eles, se cometerem atos contra o Estado brasileiro e contra a lei, precisam ser julgados e punidos. Mas isso não quer dizer que devemos colocar suas cabeças na ponta de uma lança e expô-las em praça pública. No Brasil, a "presunção da inocência", previsto na Constituição, não existe. Em terras brasileiras, todo mundo é culpado até que se prove o contrário. Mas, se todo político é culpado antes de ser julgado, porque nós não duvidamos dos nossos juristas? Se o brasileiro ganha vantagem em tudo, porque os juristas estariam fora deste grupo? Eu sei, o medo de perder referências é gigantesco... Mas é ai que entra a MINHA perspectiva sobre tudo isso.



O Meu Lado

Não podemos pegar todo mundo, colocar na guilhotina e dizer que mudamos o Brasil. Esse revanchismo “a la revolution française” só irá trazer duas coisas: a perda de todos os direitos de todos os indivíduos e o surgimento de ditadores oficiais (de farda mesmo, daqueles que não saem via “impeachment”). A mudança no nosso país só vai acontecer se mantivermos alguma estabilidade e se mudarmos gradativamente o sistema no longo prazo. Você não irá prender todos os ladrões do país na sua geração. Seus filhos também não. Seus netos também não. Na verdade, nunca conseguiremos moralizar o país “totalmente”. Mas calma, não se desespere. Os EUA não é um país moralizado também. Nem nenhum outro país é o refúgio da “moralidade”. A diferença é que em alguns países há mecanismos que coíbem mais atitudes imorais e em outros, há mecanismos frouxos (como no nosso caso).

Olhe para nosso Estado e reflita. Veja a hierarquia do poder. Você acha mesmo que teremos alguma mudança de sistema neste cenário? A Dilma cai, vem o Temer (que também pode cair, graças ao TSE e a cassação de chapa). Ai ele cai, vem o Eduardo Cunha (nem preciso falar nada). Cai o Cunha, vem o Renan Calheiros (coronel das antigas). Cai o Calheiros, vem o Lewandowski, presidente do STF e novas eleições surgem. Ai, nestas eleições, alguém é eleito e em seu governo, mais revanchismo, mais cabeças caindo e assim por diante. Ou seja, instabilidade e mais instabilidade! Que economia sobrevive a isso? Como aplicar a lei num ambiente de instabilidade? Todos os grupos políticos tentarão se salvar e usarão o Estado para isso. A lei será mais ferida do que já foi! Isso porque você não sabe se o judiciário é “isento”. Se você foi capaz de acusar o judiciário de beneficiar o PT, porque não é capaz de acusar o judiciário agora também? Moralidade seletiva? 

O meu lado é a minha consciência livre (da qual não abro mão) e a República. Chamar-me de “petista” ou “coxinha” não mudará absolutamente NADA na minha vida. Para a minha consciência, para a minha liberdade enquanto indivíduo (preceito máximo do liberalismo clássico) importa apenas o que eu sei. O que você acusa, entra por um ouvido e sair pelo outro. Caminho assim desde que nasci. Não será meia dúzia de fanáticos que me farão mudar.

Defendendo a República, eu defendo a estabilidade. Dura Lex, Sed Lex. Que a lei seja cumprida integralmente para TODOS os envolvidos em qualquer situação. Que o devido processo legal (princípio da inocência, amplo direito de defesa e de contraditório, julgamento imparcial etc), seja plenamente respeitado para todos os cidadãos brasileiros, independente de protesto nas ruas. Aliás, as ruas não devem ser “termômetro” para a lei ser ou não cumprida. Aquilo que se faz usando a razão (leis) não deve ser executada usando a emoção (ruas). Trata-se do vetor básico da segurança jurídica de todos os indivíduos de um Estado Democrático de Direito.

Nas democracias ocidentais (desde John Locke e o Governo Civil), há duas molas que sustentam a liberdade. A justiça (sistema legal) e a segurança (defesa). Para Locke, estas eram as funções fundamentais do Estado, que através do contrato social estabelece as normas de convívio social. Pois bem, o Brasil precisa manter a ordem jurídica urgentemente. Se tivermos uma crise institucional grave, a República corre o sério risco de perder sua primeira perna (a justiça). A segunda perna (defesa) pode aparecer para ajudar ou para atrapalhar. Mas deve ser usado em último caso e somente quando, de fato, perdermos qualquer possibilidade de resolver as questões na seara jurídica. Cuidemos para que nosso país não perca sua democracia! Até porque, as Forças Armadas servem para manter a lei e a ordem. Se um país perde a lei e a ordem, deixando a cargo da força a imposição de ambas, teremos caos, perda de direitos, perda de liberdades e de garantias fundamentais que custariam a sua geração, a de seus filhos e de seus netos.

Portanto, respeitemos o devido processo legal. Sejamos vigilantes com os políticos, mas também com os juízes federais. Sejamos vigilantes diariamente, com os vereadores que serão eleitos neste ano. Com os prefeitos. Acompanhemos os governos municipais de PERTO. Deste modo, o prefeito que amanhã será governador e um dia presidente, viverá numa constante vigilância social. Ai sim o Brasil começará a falar sério. E ai sim estes anos de depressão econômica e moral serão lembrados como o começo de uma grande limpa na sociedade brasileira.

Mas cuidemos para não perder o verdadeiro foco e a esperança! O PT é um capítulo nessa história, e merece ser recepcionado pela lei como qualquer partido. A justiça serve para todos, seja para acusar ou para defender. Depois do PT, ainda temos um país INTEIRO para transformar e vigiar continuadamente, com o mesmo empenho que vigiamos o PT e a atual crise.





Obrigado pela leitura!

Boa Noite e Boa Sorte (Edward R. Murrow)


Sasha Lamounier
Um jovem brasileiro, liberal clássico e pensador livre

Porto, Portugal
18 de Março de 2016



29/01/2016

Como chegamos onde estamos


Como chegamos onde estamos e o que podemos esperar para o futuro

Por

Sasha Lamounier



Introdução


A situação da economia brasileira é uma das mais problemáticas atualmente. Em 2015, o país teve uma queda de 4,5% do produto interno bruto. É a maior queda do PIB brasileiro em toda sua história. Maior inclusive do que as duas vezes em que o país teve grandes quedas. Em 1981 e 1990, o produto interno bruto caiu 4,3%. [1] [2] [2.a]

Em janeiro de 2015, o Fundo Monetário Internacional (FMI) baixou a estimativa de crescimento do Brasil para aquele ano de 1,1% para 0,3%, em um cenário onde Joaquim Levy era anunciado Ministro da Fazenda e o impeachment ainda não era pauta política. Exatamente um ano depois, em janeiro de 2016 o FMI baixou a expectativa do PIB brasileiro no presente ano de menos 1% para menos 3,5%. E para 2017, o Fundo reviu sua previsão de crescimento de 2,3% para estagnação em 0%.

A previsão do Fundo foi mais otimista do que a realidade ano passado. Em 2015, o PIB brasileiro caiu 4,5% (e não apenas 0,3%). O que significa que a margem de erro do FMI chegou a 4% negativos. Muita coisa deve ser considerada para fazer uma previsão realista em 2016, mas considerando a mesma margem de erro de 2015, podemos imaginar que o Brasil terá uma queda de 7,5% (3,5% do FMI + 4% de margem de erro) do PIB neste ano. E em 2017, possivelmente uma queda de 4%.

O que causou este “erro” de tendência negativa do Fundo em 2015? Certamente, eventos exógenos que o FMI não poderia imaginar. Eventos gerais da economia eram observáveis, mas como cada governo e cada país lida com estes problemas, depende muito de o quanto os governos são confiáveis. Podemos classificar três eventos-chave para entender a crise brasileira.

1.      Fim do ciclo das commodities (crise internacional);
2.      Nova Matriz Econômica;
3.      Crise política;

Cada um dos três elementos é responsável isolado e composto da crise brasileira. Para compreender a totalidade destes eventos, torna-se imperativo passarmos um por um para compreender como chegamos onde estamos, começando pelo fim do ciclo das commodities, para depois ensaiarmos uma conclusão deste cenário.


Fim do Ciclo das Commodities;

Primeiro, um ciclo de commodities é o período de tempo em que produtos de matéria prima são altamente consumidos pela demanda internacional até diminuir sua atração de mercado. Trata-se, portanto, de um calendário macroeconômico bastante simples. Todas as nações fazem parte de uma cadeia global de oferta e demanda. Isso significa que a balança comercial dos países depende do quanto o país X produz para consumo interno e externo e a diferença entre importar e exportar estes produtos. Em 2015, poucas coisas foram positivas além da balança comercial. Isso significa que o Brasil exportou bastante e que os exportadores lucraram com a alta do dólar (se exportam, ganham em dólar e se ganham em dólar, o dinheiro é valorizado dentro do Brasil).

Commodity são produtos de origem primária, como minério, trigo, soja, petróleo etc. Um ciclo destes produtos significa basicamente um período de tempo de depreciação da oferta e da demanda. Em economia, sempre que há uma determinada oferta, surge uma determinada demanda. A capacidade dos produtores de servirem a oferta é o que vai garantir o sucesso ou insucesso do produtor, assim como sucesso ou insucesso do comprador que demanda o produto.


Entre países, esta relação é a mesma. O Brasil atualmente possui uma balança comercial externa baseada especificamente em commodities. Veja o quadro abaixo (clique na imagem para visualizar melhor) [3]:



Repare que somente o minério de ferro representa 13% de todas as exportações do Brasil. A Soja, 9,3% e o açúcar bruto, 5%. O petróleo representa 5,3%. Portanto, nossa matriz exportadora é fundamentalmente puxada pelo mercado de commodities. Juntas, as citadas representam 32,6% de toda a balança.

O preço do minério de ferro alterou-se vertiginosamente entre 2012 e 2015. Como demonstra este gráfico, o preço do minério de ferro em janeiro de 2012 era de mais ou menos 130 dólares. Em janeiro deste ano (2016) está em 40 dólares. É uma queda de 150%! Isso, por si só, tem um impacto significativo na economia brasileira. A Vale, por exemplo, produz a custo de 20 dólares em média. Com o preço em 40 e caindo cada vez mais, a companhia terá de cortar mais gastos (o que pode também significar desemprego), e terá de apertar o cinto para lucrar. Essa situação é complicada em si, apesar da empresa fazer marabalismo para continuar operando bem. (clique na imagem para visualizar melhor) [4]




O preço do petróleo teve também uma queda vertiginosa. Em 2012, o barril custava em torno de 100 dólares. Hoje, janeiro de 2016, está cotado abaixo dos 40 dólares e caindo. Para a Petrobrás, que produz o barril a custo aproximado de 25 dólares, o encargo está cada vez maior. Isso afeta os planos para exploração do pré-sal, que representa uma reserva valiosa para o Brasil em termos tanto de autonomia energética como de exportação. O custo para se extrair o pré-sal aumenta se a empresa não tiver capacidade de investimento e de retorno. Isso significa que os royalties do pré-sal também são afetados, o que impacta no orçamento de Estados e municípios brasileiros. A seguir, um gráfico mostrando a variação do preço do barril do petróleo entre 2012 e janeiro de 2016. (clique na imagem para visualizar melhor) [5]




Estes dois aspectos demonstram que tanto o minério de ferro quanto o combustível fóssil estão em declínio nos mercados globais. O que gerou este declínio? O que gerou o fim do ciclo destas commodities? Pode-se colocar a culpa em “n” fatores, mas alguns são canônicos: I. O desenvolvimento do óleo de xisto nos EUA; II. A crise chinesa e; III. A queda da demanda internacional (Europa e Ásia especialmente).

O óleo de xisto é um combustível fóssil retirado da extração do xisto betuminoso. Além dele, há também o gás de xisto. Os Estados Unidos tem uma grande reserva natural de xisto, e investem na tecnologia de fraturação hidráulica – o chamado fracking – desde os anos 1980. Mas foi a partir dos anos 2000 que as tecnologias associadas à indústria começaram a se desenvolver. Ano após ano as tecnologias se desenvolveram rapidamente e os EUA aproveitou sua vocação econômica para aumentar sua independência perante a OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) e o Oriente Médio (isso também explica muita coisa a cerca da política externa americana). Para se ter ideia, o gás de xisto representa hoje 44% da produção total de gás natural nos Estados Unidos. Enquanto a tecnologia tem impulsionado a produção de petróleo de xisto em 56% do total do petróleo americano. Estes avanços fez dos EUA o maior produtor mundial de petróleo. Ou seja, os EUA deixaram de ser o maior importador de petróleo do mundo para se tornar o maior exportador. [6]

Por conta disso, atualmente o maior importador de petróleo é a China. Além de ser um grande importador de minério de ferro e soja, dois dos principais produtos brasileiros. Mas a China tem um problema: ela não foi capaz de criar um intenso mercado interno, que pudesse tapar os buracos do crescimento exportador abrigado pelo país na última década. Ao contrário dos EUA, que alcançou sua autonomia energética e aqueceu o mercado interno (em especial a classe média), superando assim os problemas enfrentados pela crise de crédito em 2008, a China é um país de economia essencialmente exportadora, com uma sociedade pouco incluída no mercado interno. Com a crise de 2008, a Europa enfrentou uma grande desaceleração do consumo, impactada especialmente pelas crises grega, italiana, espanhola e portuguesa. Do mesmo modo, os EUA diminuiu seu volume de importações. Isso afetou diretamente a economia chinesa, que sem seus maiores consumidores, precisou mudar os planos para finalmente criar um forte mercado interno. Mas o tiro tem saído pela culatra. [7]

A sociedade chinesa não é feita de classe média, mas essencialmente de classes ricas (uma minoria) e uma imensa classe pobre (trabalhadores, agricultores, comerciantes locais, profissionais autônomos). A disparidade econômica entre a China urbana e a rural é a maior do planeta. Nas recentes décadas, muitos moradores pobres reuniram-se em cidades do leste do país, o que atraiu um boom de construção (o que gerou as cidades fantasma). No início de 2012 os moradores de cidade pareciam superar a população rural pela primeira vez, de acordo com dados oficiais. Mas isso não significa crescimento de um mercado consumidor interno. Os emigrantes chineses continuam pobres para os padrões internacionais e, com um país desesperado por desenvolver um mercado interno, sem uma política de expansão ao crédito (privado e público) e ao próprio empreendedorismo, apenas uma coisa pode acontecer: quebra. [14]

Hoje a economia chinesa não é sustentável. O mercado consumidor externo arrefeceu e tentar alterar, tentar reverter à ordem de sua estrutura econômica para criar um mercado interno, é humanamente impossível no curto prazo. Será necessário pelo menos uma década de investimentos, corte de gastos e carestia para a sociedade chinesa se adequar a um modelo distributivo e consumista internamente sustentável.

Recentemente, a China tem dado demonstrações desta crise iminente. Um país que crescia todo ano a taxas de 14%, em média, hoje cresce a 6,5%. Em outros termos, a crise de 2008 gerou, na China, um corte pela metade de seu PIB. Com um mercado interno frágil, naturalmente as importações diminuem. E com as importações diminuindo, todos os parceiros comerciais do país irão sofrer junto. Entre eles o Brasil (grande exportador para a China).

Portanto, em resumo, o primeiro elemento da crise brasileira é a crise internacional e o fim do ciclo das commodities, puxado pelo arrefecimento da China, pela recuperação interna dos EUA e pela queda de demanda agregada global dos produtos commodities.


Nova Matriz Econômica

O segundo fator, a chamada “nova matriz econômica”, é o que podemos chamar de política econômica adotada pelo governo brasileiro após a crise de 2008 (final governo Lula e governo Dilma). Abandonando o tripé macroeconômico estabelecido ainda nos governos de Fernando Henrique Cardoso (metas de inflação, responsabilidade fiscal e câmbio flutuante) e assumindo uma nova matriz econômica, baseada basicamente no inverso do tripé anteriormente estabelecido. Ou seja: expansão fiscal (estímulos), crédito abundante a juros subsidiados e taxa de câmbio controlado. Foi substituída a responsabilidade fiscal pela expansão fiscal. As metas de inflação deram lugar a uma expansão do crédito público e a mudança da taxa de câmbio flutuante (determinada pelo mercado), para intervenções do Banco Central no mercado cambial em busca de gerar uma taxa de câmbio “competitiva”. [8]

Os efeitos desta mudança são sentidos de forma geral pela economia. Mas antes, vamos entender o que levou, economicamente, o governo a adotar estas práticas. Primeiro, a crise de 2008 foi o que o governo chamou de “crise do crédito privado”, dado que a bolha imobiliária americana estourou devido a créditos fornecidos por bancos privados que, inclusive, faliram ou se fundiram para se salvar. Ao mesmo tempo, um governo que vinha tendo sucessos com o ciclo das commodities e com a expansão do mercado consumidor, viu após a crise a chance de aprofundar este crescimento, assumindo uma política de expansão ao crédito. Isso aumentou o consumo, manteve acesos os programas sociais do governo (entre eles o Minha Casa Minha Vida) e também aqueceu a produção, apesar do mundo estar passando por uma crise. Em alta, Lula consegue eleger sua sucessora em 2010. Até 2013, o consumo não se alterou profundamente e a expectativa popular era de avanço deste desempenho. Contudo, nada é eterno.

Os bancos privados, quando emprestam dinheiro as pessoas, são mais cuidadosos devido ao elevado risco de inadimplência e possível falência da instituição em caso de calote. O chamado “spread bancário” é, simplificadamente, a diferença de juros entre aquilo que o banco empresta e aquilo que o banco recebe de depósito. Si a diferença de juros entre o dinheiro emprestado e o dinheiro depositado no banco for elevado, trata-se de um banco saudável. Se for menor, o banco não terá condições de honrar compromissos com depositantes e isso poderá gerar a falência do banco. Já o banco público (no modelo da Nova Matriz) emite crédito sem se preocupar com o spread (empréstimos subsidiados com juros abaixo da SELIC), já que a ordem é política e não econômica. Por isso os bancos públicos, que através da nova matriz econômica são utilizados como fomentadores do crescimento, tem aumentado muito seu nível de crédito ao invés dos bancos privados, que diminuíram bastante o volume. Este gráfico a seguir mostra o volume de crédito fornecido por bancos privados e públicos ao longo da série histórica. Em azul, bancos privados e em vermelho, públicos: (clique na imagem para visualizar melhor) [9]




Repare que a partir de 2012-2013 os bancos privados diminuíram o volume de crédito fornecido, enquanto que os bancos públicos aumentaram. O motivo é simples: os bancos privados não tinham mais a segurança necessária para emitir créditos, devido ao alto risco de inadimplência. Foi aí que os bancos públicos assumiram a dianteira como grandes emprestadores. Mas isso não dura para sempre. Se o nível de inadimplência dos devedores aos bancos públicos for alto demais, os bancos começam a entrar seriamente no vermelho, visto que o seu spread bancário será inverso: irá ter mais dinheiro emprestado do que dinheiro de retorno. O calote é inevitável. Isso causa aumento do endividamento, paralisia do consumo, diminuição da produção e naturalmente recessão.

Se já temos um problema de demanda agregada internacional, agora temos outro problema: nossa matriz econômica não é sustentável. O governo irá gastar mais do que arrecada (menos produção, menos consumo, menos arrecadação), tentará a todo custo fazer marabalismos para manter os programas sociais fundamentais e pior, tentará se reeleger através de uma eleição discursivamente destoante da realidade. Na eleição de 2014, parte da sociedade brasileira já havia sentido os efeitos tanto da crise internacional como da crise interna, gerada pela nova matriz econômica. Foi esta parcela que enfurecidamente lutou contra a reeleição de Dilma Rousseff. Mas a outra parcela, ainda fiel à política de estímulo ao crédito, fiel a política governista de desenvolvimento e garantia dos programas sociais, manteve-se unida a presidente e conseguiram a reeleger por uma margem muito pequena.

De todo modo, a crise econômica já estava instalada e agora, depois de uma eleição radicalizada e bem dividida, surgiu o terceiro problema: uma crise política.


A Crise Política


Há de se considerar diversos fatores. Um deles foi uma crise de confiança de parte do eleitorado de Dilma que o seu segundo governo criou ao negar o programa eleitoral e colocar na Fazenda um ortodoxo economista (Levy), ideologicamente contrário a tudo o que a campanha no ano anterior defendia. Isso causou a interpretação de que o governo reconheceu indiretamente que a propaganda era enganosa e o país estava em crise. Por si só, este primeiro erro estratégico já deu motivos de sobra (e bem coerentes) para a oposição bater no governo com toda a força. Mas como se não bastasse, 2015 foi um ano de grandes dificuldades econômicas, com ajustes fiscais na pauta do dia, uma economia piorando a nível interno e externo e um agigantamento das tensões sociais, tanto nas ruas como no cenário político.

A Operação Lava Jato, que desde 2014 estava fazendo uma grande devassa nos crimes cometidos em torno da Petrobras (que hoje já chegam ao custo de 10 bilhões de reais só em propinas), acabou por revelar em 2015 uma onda de denúncias afetando todos os quadros da política brasileira. Muitos dos quais, presentes no Congresso Nacional. Diversos quadros de diferentes partidos foram citados por delatores e acabaram sendo investigados pela Polícia Federal, incluindo membros do partido de Dilma (PT – Partido dos Trabalhadores). Com a mídia anunciando as novidades da operação praticamente durante todo o ano, além das notícias negativas da economia brasileira e a mudança do quadro de expectativas da população, junto de uma classe política em alvoroço por conta da operação Lava Jato, uma crise política se instaurou. [10]

No meio desta crise política, tínhamos uma economia necessitando de ajustes, um eleitorado pró-Dilma sentindo-se traído por ter visto um Brasil inverso ao da propaganda eleitoral e uma crise ética e moral de grandes proporções em todos os cenários da política brasileira. Não tardou e o impeachment tornou-se bandeira popular, especialmente daqueles que já haviam votado em Aécio Neves (candidato da oposição) em 2014. O presidente da Câmara (Eduardo Cunha), um dos investigados na Lava Jato, recebeu diversos pedidos de impeachment da Presidente Dilma, arquivando vários enquanto era possível uma negociação dele com o governo. Até o momento em que o presidente da Câmara, pessoalmente, rompeu com o governo e iniciou uma velada campanha anti-Planalto. Passaram-se os meses, os dados da economia não melhoravam e a insatisfação só aumentava. O ministro da fazenda, Joaquim Levy, não conseguia aplicar seus ajustes mais que necessários para uma economia problemática, especialmente com um Congresso Nacional turbulento. [11]

O problema em geral já era complicado, Levy não iria conseguir mudar de cabeça para baixo a situação do Brasil. Para isso ele teria de resgatar o tripé econômico de FHC e revisar a política de estímulo. Mas sua função, na verdade, nunca foi essa. Foi apenas resgatar a confiança do mercado investidor para o Brasil não perder mais divisas além das que já estava perdendo. Acabou que a crise política implodiu o “projeto Levy”.

Dito e feito, em finais de 2015, um dos pedidos de impeachment foi aceito pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha (provavelmente como represália por não ter recebido apoio do governo no conselho de ética, que iria julgar a cassação de seu mandato como presidente devido às denúncias da Lava Jato perpetradas contra ele).

Próximo ao novo ano, o então ministro Joaquim Levy sai do cargo, dando lugar ao reconhecido desenvolvimentista Nelson Barbosa. [12] [13]


Conclusão Possível




Esta cadeia de acontecimentos, desde a crise internacional, passando pela nova matriz econômica e chegando a crise política, tem gerado uma profunda retração da economia brasileira. A crise política aumenta o grau de incertezas a cerca da recuperação do Brasil, o que se somando a retração chinesa e a grande crise de inadimplência brasileira, pode gerar efeitos dos mais negativos possíveis no curto, médio e longo prazo.

A previsão de retração de 3,5% em 2016 por parte do FMI para o Brasil é um sopro de otimismo. Neste cenário, muito provavelmente o Brasil terá uma queda acentuada, podendo realisticamente chegar em 5% ou 6% de queda. Em 2017, pode-se imaginar uma queda em torno de 3% ou 4% do PIB (se não pior). Para a economia se recuperar e voltar a crescer, muita coisa tem de mudar.

Em minha opinião, primeiro, o país precisa criar um mercado consumidor interno forte e sustentável. Com a atual crise política, é impossível. Além de a inadimplência ser alta, não há incentivos para a população assumir uma postura autonomista, com uma classe média forte e abrangente. Pelo contrário, nos próximos anos veremos um ressurgimento da pobreza e da miséria em larga escala no Brasil, o que impedirá o país de crescer sustentavelmente através de uma forte classe média consumidora.

Segundo, o país precisaria de uma convergência política, de uma estabilidade política (e social) para criar reformas essenciais e duras (como ajustes fiscais, reforma tributária, desburocratização, manutenção de programas sociais importantes etc). Atualmente, o país vive um alto grau de radicalização e de instabilidade política e social, certamente continuada para depois das eleições de 2018.

Terceiro, a economia internacional precisa dar sinais de recuperação, para através das exportações o Brasil diversificar sua matriz exportadora (saindo da dependência da China) e começar a investir em capitais mais sustentáveis, com energias renováveis e uma nova estratégia nacional de desenvolvimento do território, das cidades e das regiões. Isso só será possível se houver, novamente, alguma coesão social e um cenário favorável no planeta.

Se a previsão, através desta análise, é de queda do PIB em 2016 e 2017, eu incluiria queda do PIB em 2018 e 2019, podendo ter um cenário de estagnação em 2020. O crescimento pode voltar timidamente a partir de 2021, se as principais medidas aqui demonstradas forem assumidas e se o cenário internacional demonstrar sinais de melhora. Tudo leva a crer que a eleição de 2018 será fundamental para o futuro do país. Se o discurso radicalizado continuar na eleição de 18 (o que é bem possível), podemos correr o risco de eleger um presidente sem apoio popular e político maciço, impedindo assim a convergência necessária para importantes reformas. O pior cenário de todos é, em 2018, o Brasil eleger um embuste. Se isso acontecer, é possível que tenhamos mais turbulências sociais, piora do cenário econômico e uma possível destruição de tudo aquilo que o país conquistou desde a redemocratização.

Podemos mudar isso? De certo, há várias maneiras deste cenário se alterar e de nós influenciarmos positivamente estas mudanças. Mas se este cenário e os interesses escusos por trás de cada elemento da crise brasileira forem maior do que a boa vontade daqueles que se preocupam com o futuro, talvez tenhamos de nos preparar para o pior. 

Obrigado pela leitura, 

Sasha Lamounier
Um brasileiro


Porto, Portugal
30 de Janeiro de 2016


Fontes e referências:


[2] http://g1.globo.com/economia/noticia/2016/01/fmi-piora-projecoes-para-o-brasil-e-deixa-de-ver-crescimento-em-2017.html

[2.a] https://www.google.pt/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=3&cad=rja&uact=8&ved=0ahUKEwjV24C-7NDKAhWFOBoKHf6xCt8QFggsMAI&url=http%3A%2F%2Fwww.ibge.gov.br%2Fhome%2Fpresidencia%2Fnoticias%2Fimprensa%2Fppts%2F00000007765203112012522606619383.xls&usg=AFQjCNGhwgbtnyytzaPJvtwdmI7T_AdDCA&sig2=9RVlLsq8aLuepkxg3iv4gQ&bvm=bv.113034660,d.d24