Perspectivas e Previsões Preliminares
Estamos a 10 meses das eleições presidenciais de
2026, e como sempre, precisamos organizar as ideias sem cair na névoa que
grande parte da imprensa e dos comentaristas procuram promover. Depois de ter
acertado todas as previsões das eleições de 2024 (municipais), das de 2022
(gerais), e também da de 2018 (gerais), chegou a hora de olharmos o cenário de
2026 pelo prisma do meu método pessoal.
A primeira coisa que o leitor(a) deve compreender (e
se tem acompanhado meus textos o leitor(a) já sabe), é que atualmente há três
forças hegemônicas na política brasileira. Por ordem de importância e
capilaridade, a primeira força é o centrão
fisiológico (a velha direita estancieira, os ‘donos’ do Brasil profundo, do
agronegócio, das elites e dinastias políticas etc.). Representados por partidos
como PSD, União Brasil, MDB, PP e Republicanos. A segunda força é o bolsonarismo, atualmente representado
pelo PL e por facções de outros partidos (incluindo PP e Republicanos). A
terceira força – num distante terceiro lugar para o segundo colocado – está o lulopetismo (representado, obviamente,
pelo PT, mas também por seus satélites como PSOL e PSB).
Para se ter uma ideia, nas eleições municipais de
2024 (o melhor termômetro para 2026), os maiores vencedores foram o PSD, o PL,
o Republicanos e o próprio PT, que conseguiu uma melhora frente aos resultados
de 2020. É natural considerar que esta tendência se manterá verdadeira em 2026,
onde teremos não apenas a cadeira da Presidência da República em disputa, mas
também 2/3 do Senado (54 das 81 cadeiras, dois senadores por estado) e toda a
Câmara dos Deputados. Além, é claro, de decidir governos estaduais e
parlamentares estaduais.
Observe que a importância do pleito de 2026 se impõe
maior do que a de 2022, visto que a mudança de 2/3 do Senado pode reconfigurar
o Legislativo por quase uma década. Isso, por si só, é tão importante quanto a eleição
do próprio presidente da República. Num contexto de tensões geopolíticas,
cordas bambas económicas, titubeio institucional e com uma sociedade amorfa mas
ao mesmo tempo irritadiça e polarizada, temos um cenário onde qualquer crise
mais profunda, qualquer mudança brusca na previsibilidade nacional, faz o país voltar
a operar em estado de instabilidade crônica (como nos anos 2013-2015).
É por este motivo que a leitura a seguir precisa ser
considerada como parte de um processo, não apenas de um recorte eleitoral. As
forças que atuam no país não começaram o pleito de 2026 hoje, mas desde o final
da última eleição. O julgamento e condenação de Jair Bolsonaro, a influência externa
de Trump e outros atores e os erros e acertos do governo Lula farão parte do
julgamento do eleitor em 2026. E, como se diz muito em política, eleição é
sobre bolsos, corações e mentes. Quem conseguir comunicar melhor a mensagem,
conseguirá ressoar melhor com o eleitor e consequentemente agregar louros.
Parte I
Qual é o contexto brasileiro de 2026
Na economia o Brasil caminha para 2026 em um cenário
de crescimento baixo a moderado, forte dependência do ciclo externo
(commodities) e fragilidades fiscais estruturais não resolvidas.
Apesar de alguma estabilidade macroeconómica aparente, sustentada por políticas
de curto prazo, o país segue convivendo com um Estado caro, ineficiente e
altamente pressionado por despesas obrigatórias, em especial previdência, folha
de pagamento e programas de transferência. O novo arcabouço fiscal, embora
tenha trazido previsibilidade inicial, ainda não foi testado sob estresse
político-eleitoral pleno, o que gera desconfiança nos agentes económicos quanto
à sua sustentabilidade no médio prazo. A inflação, embora controlada em termos
técnicos, continua sendo percebida de forma mais intensa pela população de
baixa renda, especialmente nos preços de alimentos, energia e serviços
essenciais. Esse descompasso entre indicadores macroeconómicos e sensação
microeconómica tende a pesar fortemente no humor do eleitor em 2026, reforçando
a máxima de que eleições são decididas mais pela percepção de bem-estar do que
por gráficos oficiais.
B). Geopolítica e Relações
Externas:
No plano internacional, o governo Lula conseguiu
reposicionar o Brasil junto a centros decisórios relevantes, restabelecendo
canais com a União Europeia, aprofundando a relação económica com a China e
retomando o diálogo institucional com os Estados Unidos durante a administração
Biden (até 2024). Esse movimento representou uma inflexão clara em relação ao
isolamento e à erraticidade da política externa bolsonarista, contribuindo para
uma percepção de maior previsibilidade e estabilidade do país no sistema
internacional. Contudo, num cenário global cada vez mais multipolar, marcado
por disputas estratégicas abertas, o reposicionamento externo exige coerência
interna. O discurso lulista em defesa da democracia e dos direitos humanos
passou a ser tensionado pela aproximação com regimes autoritários e por
ambiguidades normativas inerentes à atuação brasileira em fóruns multilaterais
e coalizões como os BRICS.
A reeleição de Donald Trump
em 2024 e sua posse em 2025 introduziram um novo fator de instabilidade nas
relações Brasil–Estados Unidos, exigindo ajustes no tom diplomático e maior
pragmatismo estratégico por parte de Brasília. A política externa
norte-americana, cada vez mais orientada pela lógica das “esferas de influência”,
coloca o Brasil diante de um desafio adicional: equilibrar a presença económica
chinesa, a tentativa de avançar em acordos comerciais com a União Europeia e a
influência política e securitária exercida pelos EUA na América Latina. Nesse
contexto, tornam-se evidentes as fragilidades estruturais do país. A ausência
de uma política nacional consistente de defesa do território, aliada à
fragilidade do parque industrial, especialmente nos setores estratégicos de
defesa, tecnologia e exploração de recursos naturais, limita a capacidade
brasileira de projeção internacional e o coloca em desvantagem relativa frente
a países como a Índia, que vêm combinando crescimento industrial, autonomia
estratégica e afirmação regional.
O próximo presidente,
independentemente de quem seja, terá de enfrentar de forma direta a questão do
lugar do Brasil no mundo e as escolhas estratégicas que dela decorrem. Uma
política externa efetivamente independente e altiva exigirá não apenas
habilidade diplomática, mas também a capacidade de reduzir a dependência
excessiva da China e de administrar as contradições normativas associadas à
proximidade com a Rússia no âmbito dos BRICS. Com Trump na Casa Branca até
janeiro de 2029, boa parte do próximo mandato presidencial brasileiro transcorrerá
sob um ambiente internacional menos cooperativo e mais combativo. Temas como
meio ambiente, infraestrutura tecnológica, inteligência artificial, economia
informal e desemprego estrutural tendem a ganhar centralidade na agenda externa
e doméstica, sem prejuízo da tentativa de reconstruir um arranjo internacional
baseado em regras, previsibilidade e multilateralismo funcional.
C). Instituições:
Institucionalmente, o Brasil chega a 2026 após anos
de tensão recorrente entre os Poderes, erosão da confiança pública e
hiperjudicialização da política, o que contribui para um
ambiente de instabilidade crónica. O fortalecimento do protagonismo do
Judiciário, combinado com um Legislativo fragmentado e altamente pragmático,
redefiniu os centros reais de poder no país, frequentemente deslocando decisões
políticas para arenas não eleitorais. Ao mesmo tempo, a polarização social
permanece elevada, ainda que mais difusa do que em ciclos anteriores, com uma
sociedade simultaneamente cansada do conflito permanente e profundamente
desconfiada das instituições. A renovação de dois terços do Senado em 2026
adiciona uma camada extra de complexidade a esse cenário, pois abre a
possibilidade de reconfiguração do equilíbrio institucional por quase uma
década. Em jogo está o equilíbrio entre os três poderes, a governabilidade do
próximo presidente e a capacidade do poder político fazer reformas necessárias,
especialmente na estrutura fiscal brasileira e nas suas fragilidades
constitucionais.
D). Desafios
gerais:
I.
Violência:
O Brasil continua com índices elevados de
criminalidade urbana, especialmente homicídios, roubos e crimes contra o
patrimônio, concentrados em grandes centros metropolitanos. A atuação das
facções criminosas, em particular no tráfico de drogas e milícias, aliado à
fragilidade policial e política em algumas regiões, mantém a sensação de
insegurança como um dos maiores fatores de insatisfação popular. A operação no
Rio de Janeiro no último dia 28 de outubro politizou o tema, tornando-o central
para as eleições de 2026. Além disso, questões de violência doméstica e
feminicídio também seguem críticas, exigindo políticas públicas integradas,
prevenção e reforço do sistema judicial.
II.
Desigualdade Social e Pobreza:
Embora programas de transferência de renda (Bolsa
Família) e sociais (Minha Casa, Minha Vida) tenham mitigado parte da extrema
pobreza, a desigualdade permanece profunda. O Brasil apresenta uma classe média
vulnerável, sensível a choques econômicos como inflação de alimentos, energia e
serviços essenciais. A pobreza estrutural, informalidade e precarização do
trabalho intensificam a percepção de injustiça e de falta de oportunidades,
moldando o humor eleitoral.
III.
Educação e capacitação:
A qualidade da educação básica e profissional
continua desigual, com acesso limitado em regiões periféricas e rurais. Isso
impacta diretamente a empregabilidade, inovação tecnológica e competitividade
industrial do país. A necessidade de investimento em educação STEM (ciência,
tecnologia, engenharia e matemática) se torna ainda mais relevante com o avanço
da inteligência artificial e automação.
IV.
Saúde pública:
O sistema de saúde pública (SUS) enfrenta desafios
crônicos de gestão, financiamento e acesso desigual. Problemas como fila de
espera, falta de recursos hospitalares e desigualdade no acesso a tratamentos
avançados continuam impactando a população, ao mesmo tempo que crises
sanitárias globais e novas pandemias exigem capacidade de resposta rápida e
planejamento estratégico.
V.
Tecnologia e Inteligência Artificial:
A sociedade brasileira ainda enfrenta baixa
regulação em tecnologias emergentes, IA e automação. Isso cria riscos de
exclusão digital, impactos no mercado de trabalho, privacidade e segurança de
dados. O próximo presidente terá que equilibrar inovação tecnológica, atração
de investimentos e proteção de direitos, em meio à crescente digitalização da
economia.
Soma-se a isso a crescente utilização da IA em
campanhas eleitorais, marketing digital e economia informal. O pleito de 2026
terá de enfrentar os mesmos problemas relacionados a fake news e desinformação
que passou em 2022 e 2018, com a agravante de que agora há mais incentivos para
o mesmo. A crescente tensão entre o judiciário (na figura de Alexandre de
Moraes e dos casos das fake news e do golpismo), associado com a massiva
utilização das redes sociais pela população brasileira, cria uma camada extra
de complexidade ao assunto.
Quais serão os temas da eleição de 2026?
Certamente segurança pública, relações externas e
economia estarão no topo da lista. Saúde e tecnologia acompanham como temas
centrais secundários e transversais aos demais. Relações institucionais e
corrupção, como sempre, serão explorados. Mas dentro do contexto de 2026: Lula
defensivo, Bolsonaro atacante e uma via ‘mais neutra’.
Parte II
Quem serão os prováveis candidatos principais em 2026
Embora pareça óbvio, é importante refletir sobre um
dado crucial na política brasileira. Lula é figura constante nas eleições
presidenciais desde 1989, logo na redemocratização. Todos os pleitos sucessivos
tiveram ou Lula como candidato ou um candidato do Lula como ponta de lança. Não
tivemos, até hoje, uma única eleição presidencial pós-ditadura sem a figura de
Luís Inácio Lula da Silva presente. Por isso, de muitas maneiras diferentes,
2026 será um pleito histórico. Não apenas porque teremos Lula candidato pela
sétima vez (depois de 1989, 1994, 1998, 2002, 2006 e 2022), mas também porque
esta é provavelmente a sua última eleição como candidato direto.
Se Lula estiver vivo em 2030, ele potencialmente
apoiará um nome de seu partido (de modo que os próximos quatro anos serão,
também, importantes para ele construir um sucessor competitivo). Neste sentido,
2026 irá decidir o rearranjo institucional brasileiro, como também, irá definir
o rearranjo político brasileiro de longo prazo. Que PT teremos na era pós-Lula?
Como fica o bolsonarismo? E o centrão fisiológico? Quais são os novos líderes e
tendências para as próximas décadas?
Responder a tudo isso apenas neste texto não será
trivial, mas darei algumas sugestões do que o contexto vem desenhando na minha
percepção. A começar pelo candidato do PT.
I.
Lula como candidato:
Aventou-se a hipótese de Fernando Haddad (ministro da
fazenda), ser o candidato do PT ao pleito de 2026. No entanto, repetidas vezes
Lula assumiu que será candidato para ‘evitar que a extrema-direita volte ao
poder’. Embora o receio do bolsonarismo retornar de algum modo seja razoável, a
verdade é que Lula não tem um sucessor. Se não for ele o candidato, o PT não
terá candidato competitivo. Haddad, que anunciou saída do ministério da fazenda
para ajudar na coordenação da campanha de Lula em 2026[1], é
claramente o franco favorito para atuar como sucessor de Lula no futuro
próximo.
Mas o desafio de Haddad está em dois pormenores.
Primeiro, ele é visto como um ministro fraco até por aliados (como Gilberto
Kassab, que o chamou assim em evento no início do ano[2]). Além
disso, o ministro sofreu duas pequenas crises de imagem durante sua gestão à
frente da economia. Uma no caso da taxa das blusinhas e a outra no caso do PIX.
Com comunicação errática e falta de traquejo político-eleitoral, o ministro (visto
como técnico entre os quadros do PT), sofreu também reveses institucionais.
Dificuldades na aprovação do novo arcabouço fiscal no Congresso quanto o mau
humor dos mercados feriu sua imagem de gestor competente. Por isso, ainda que
Lula aposte em Fernando Haddad no longo prazo, as chances dele efetivamente
herdar o capital político lulista são muito baixas.
A condenação e a prisão de Jair Bolsonaro retirou do
cenário eleitoral o principal adversário de Lula, permitindo que seu quarto (e
último) mandato ficasse mais “fácil”. No entanto, pelos estudos que tenho feito
através das pesquisas eleitorais e tendências, a verdade é muito mais negativa
ao presidente do que se imagina.
Lula não é mais uma hegemonia. Com altíssima rejeição,
Lula permanentemente não agrada pouco mais de 1/3 do país, enquanto é tolerado
por 1/3 e amado por outro 1/3. Por ter grande capilaridade eleitoral e a
máquina do estado a seu favor, ele é franco favorito para vencer as eleições de
2026. É o “homem a ser batido”. Porém, isso não significa uma eleição fácil. O
desgaste causado pela percepção popular da economia, pela sensação de insegurança
nas grandes cidades e pelo discurso ideológico errático do presidente e seu
partido, faz com que grande parte dos eleitores que votaram em Lula contra
Bolsonaro em 2022 revejam seus posicionamentos. A depender do adversário, isso
pode colocar em risco a vitória do presidente.
Por isso, Lula entra no pleito de 2026 em posição
defensiva. Ele não poderá simplesmente se glorificar na campanha eleitoral,
terá de efetivamente defender os resultados de seu mandato e transforma-la em
narrativa convincente o suficiente para impedir que outro candidato mais
aprazível não tome o seu lugar. Será atacado principalmente pelo candidato
bolsonarista, e sofrerá grande campanha de desinformação nas redes. Isso,
associado a uma económica frágil e um mundo combativo, cria a combustão
perfeita para uma campanha difícil e muito onerosa.
II.
O candidato do bolsonarismo:
Com Jair Bolsonaro fora do pleito de 2026, o vácuo
precisava ser urgentemente preenchido por alguém. Bolsonaro representa cerca de
25 a 30% do eleitorado brasileiro, o que é suficiente para garantir segundo
turno em eleições majoritárias. Além disso, o bolsonarismo (como vimos no
começo), é a segunda maior força política regionalista, aliando-se com o
centrão em muitos casos para manter relevância. Sendo esta força pujante, que
polariza com o 1/3 lulopetista, é natural que quando “Rei morto, Rei posto”.
Tarcísio de Freitas procurou por muito tempo ser
este “Rei posto” bolsonarista. Com o capital político ganho nas municipais de
2024 e sua articulação junto ao Congresso Nacional contra o STF, o governador
do Estado mais rico do país colocou-se como potencial sucessor de Bolsonaro
entre os bolsonaristas. Seu nome aparece em pesquisas de forma competitiva,
muito embora o próprio negue candidatura. O que, do ponto de vista estratégico,
faz mais sentido assegurar uma reeleição em São Paulo do que uma aventura
presidencial sem certeza. Além disso, considerando que Jair Bolsonaro não quer
perder o controle do seu grupo político, também se colocou a tese de que um
membro de sua família seria alçado candidato. Entre Michelle Bolsonaro e seu
filho, Flávio, Jair optou pelo primogênito.
Flávio Bolsonaro não é o candidato perfeito. Mas sua
pré-candidatura torna o jogo de 2026 mais claro de ser lido. O bolsonarismo tem
o seu nome, e em muitas pesquisa, Flávio aparece consistentemente em segundo
lugar, atrás de Lula. Com o bónus de Flávio ter menos rejeição do que Jair.
Isso o ajuda, e torna o campo bolsonarista competitivo para o pleito. Ainda que
Flávio não consiga vencer (nas simulações até agora feitas no meu método, ele
perde por pouco no segundo turno para o Lula), pelo menos ele consegue eleger
uma grande bancada no Congresso, governadores e deputados estaduais, reforçando
o PL como um dos grandes partidos nacionais.
Além disso, ele mantém o nome ‘Bolsonaro’
competitivo, seja para o pai tentar um retorno futuro, ou ainda, para a família
manter o seu capital eleitoral no país (a exemplo da família Le Pen na França).
III.
O candidato do
centro-direita fisiológica (vulgo centrão):
Se Lula é o candidato do lulopetismo pois o PT não
tem sucessor a altura, e se Flávio é o candidato de Bolsonaro pois Jair está
preso e inelegível, então sobrou para a maior força política do país se
organizar. O centrão, que desde tempos imemoriais governa o Brasil, sendo o
fiel da balança na governabilidade de sucessivos governos e em regimes
diferentes, não precisa escolher no primeiro turno entre Lula e Bolsonaro. Eles
podem, e devem, capitanear sua própria alternativa para o Planalto.
Especialmente com um Lula em final de carreira política e um bolsonarismo
fragilizado.
Entre os nomes possíveis, aventa-se pelo menos
quatro: Ronaldo Caiado (governador de Goiás pelo União Brasil), Romeu Zema
(governador de Minas Gerais pelo NOVO), Tarsício de Freitas (governador de São
Paulo pelo Republicanos) e Ratinho Jr. (governador do Paraná pelo PSD). Entre
estes pré-candidatos, dois se destacam. Tarcísio e Ratinho.
Tarcísio, como visto, é um pré-candidato natural e
competitivo. Governador de um estado importante como São Paulo e bem avaliado
de modo geral. No entanto, o governador parece ter optado por se manter fiel ao
bolsonarismo como base eleitoral em seu estado (garantindo, assim, vitória na
reeleição e proximidade do clã Bolsonaro). Uma vez que Flávio foi chancelado
como candidato ao Planalto, as chances de Tarcísio optar por também pleitear o
mesmo cargo são muito baixas. Não impossíveis, mas muito baixas. O que sobra
Ratinho Júnior como o ‘coringa’ na mesa.
Ratinho Júnior, filho do comunicador do SBT,
Ratinho, é jovem (44 anos), articulado, bem avaliado como governador, membro do
PSD (o partido mais vitorioso de 2024) e é visto como um ‘agregador’ ao estilo
Michel Temer. Gilberto Kassab, o “criador de Reis” mais sagaz do Brasil hoje, é
o presidente do PSD e vê em Ratinho um candidato que pode representar uma
alternativa ao lulo-bolsonarismo. Nas simulações feitas pelo meu método,
Ratinho é o único candidato que pode efetivamente vencer Lula no segundo turno.
Em todos os cenários, ele é o que tem menor rejeição e também o maior espaço
para crescimento. Se tiver um discurso bem organizado, pode ser a reviravolta
de 2026.
IV.
Demais candidatos e partidos:
Candidatos históricos como Ciro Gomes, Marna Silva,
Simone Tebet, tendem a orbitar Lula ou procurar uma terceira via a nível
estadual. Ciro, que retornou ao PSDB após racha com o irmão, Cid Gomes (PDT),
poderá ser candidato ao governo de seu estado (Ceará). Marina e Simone devem
continuar apoiando Lula, assim como Geraldo Alckmin (PSB), fiel vice-presidente
e aliado do presidente. Eduardo Leite (PSD) provavelmente buscará uma vaga no
Senado, fortalecendo o partido e mantendo sua carreira política acesa.
Partidos estreantes como o Partidão Missão (criado
pelo MBL), lançará Renan Santos a presidência como forma de ganhar capilaridade
eleitoral a nível nacional. Vale a pena acompanhar o crescimento deste grupo
político, que visa suceder o bolsonarismo no seu extremismo pela direita
(inspirado por facções radicais do trumpismo). Pela esquerda, o futuro parece
estar centrado em lideranças como Tabata Amaral e João Campos, numa renovação
fora do PT (via PSB e PDT). Guilherme Boulo (PSOL) é o único nome que pode de
algum modo manter a militância lulista viva após o Lula.
Conclusão
Que futuro 2026 preparará para o Brasil?
Portanto, o quadro que temos é muito simples, e
também muito complexo. Temos Lula candidato, Flávio Bolsonaro candidato, o
centrão decidindo quem será o seu candidato (com grandes chances de Ratinho
Júnior ser este nome), demais candidatos nanicos disputando holofotes e as três
forças hegemónica do país tentando manter a hegemonia a nível estadual e
federal.
Preliminarmente, posso afirmar ao leitor o seguinte:
Cenário 01:
Lula x Flávio Bolsonaro = vitória apertada de Lula
no segundo turno
Cenário 02:
Lula x Ratinho Júnior = empate técnico e possível
vitória de Ratinho Júnior
O cenário aonde Lula vence no primeiro turno não
existe no mundo real. Teremos disputa, teremos uma eleição densa, com acusações
de todo lado, com empurra-empurra, e com baixaria (talvez mais do que tivemos
em 2022). No background veremos uma disputa também importante pelos governos
estaduais e pelo Senado, podendo a Câmara dos Deputados eleger bancadas iguais
ou levemente mais à direita do que a eleita em 2022. A esquerda (PT, PSB, PDT,
PSOL) tende a perder espaço, embora o PT ainda poderá fazer uma boa bancada.
Isso significa que em 2026 estaremos decidindo, em
paralelo, o seguinte:
1.
Como ficará as relações de poder entre Legislativo e Judiciário.
2.
O executivo continuará refém do Judiciário ou não?
3.
Voltaremos a alguma normalidade institucional sem o lulo-bolsonarismo?
4.
O Congresso será capaz de tratar da questão fiscal e previdenciária?
5.
Como o Brasil vai se posicionar no mundo nos próximos anos?
6.
De que maneira o governo irá preparar a sociedade para o avanço da
Inteligência Artificial e o desemprego estrutural?
7.
Qual efeito o combate ao crime organizado terá no fortalecimento de
discursos mais extremados à direita (bolsonarista, Partido Missão e afins)?
Estas perguntas essenciais serão respondidas em
2026. E eu estarei acompanhando cada pormenor para informar e analisar o
cenário que estará se desenhando.
Obrigado pela leitura,
Feliz Ano Novo!
Sasha van Lammeren
Cientista Político, membro do IPRI (Instituto
Português de Relações Internacionais)

